Tu me apareces tão repentinamente
quanto te vais. Parece até que planejaste tudo para me deixar ainda mais
perdida. E eu com minha mania de pensar demais, de querer adivinhar, de buscar
explicações, de qualquer coisa que me acalme um pouco o coração. Mas nunca
consigo. Sou muito e não caibo dentro de mim. Esborro. Sujo o chão. Sujo quem
tenta limpar minha bagunça. Sujo quem quer me ajudar, mas, sem querer, não
deixo. Prefiro estar como estou, ser como sou.
Digo que vou embora, e vou. Estou
indo, meu bem. Devagarzinho, bem sabes, caso tu te arrependas assim, do nada,
por quase um segundo. Mas estou seguindo meu caminho, cada vez mais claro e
bonito. Tempo é mesmo dessas coisas relativas demais. Às vezes demora a passar,
mas ele também sabe voar. Outubro passou num piscar de olhos. Meu piscar de
olhos com você refletido nas minhas pálpebras. Meu cinema particular de nós
dois. Minha tela de nossas lembranças. “O rádio toca a nossa música... tão
bonita e estranha, amor.” Sempre toca. Várias delas. Algumas tu nem deves
lembrar. Aposto que não. Mas eu sei de todas, guardei um monte só para mim. Guardo
tudo, sou caixa de memórias ambulante, vagando esquecida por aí.
Mudei tanto,
benzinho. Porém continuo sendo contradição: como posso mudar tanto e tu continuares
no mesmo lugar?! Pareço quebra-cabeça daqueles que a gente nunca consegue
terminar de montar. Um mexe e remexe de peças que a gente não consegue
completar porque já tá viciado numa forma única de enxergar. Vejo tudo embaçado por dentro: visão
turva de quando acordo sem óculos, bagunça de gente que não vê o que tá fazendo
de errado – nem sabe como fazer o certo.
Eu ainda doo. Bem escondidinho, quando
invento de meter o dedo no peito, procurando o que já nem devia mais. Mais uma
dessas minhas manias desnecessárias que não consigo largar. Como boa
canceriana – há quem diga –, não consigo largar essa minha mania de passado. Mania de
guardar tudo dentro de mim e querer procurar de novo quando dá vontade, mesmo
sabendo onde vai dar.
Mania de teimosia, também. Tem coisas que não dá pra
mudar, já estão muito marcadas no fundo da gente. Mania de tentar explicar, como
já tentei tantas vezes dizer o que senti dentro de mim. Mas quem já se afogou tem uma mínima
noção da dor que é amar o perdido. A água entra nos nossos pulmões, a gente
quer chorar, mas não consegue sequer respirar; dói tudo dentro: dor estranha, rasgada,
inundada. A gente sente arder por todo o nosso caminho interior, bate lá dentro
e não acaba nunca, bate e não volta pro outro, bate, bate, bate e fica só na
gente. Tosse, tosse, tosse. Água para fora pelos olhos, boca, nariz. Amor para
fora pelos olhos, boca, nariz. Amor salgado também, igualzinho ao mar que nos
afogou. Igualzinho à onda que nos derrubou e embolou na confusão de areia e
engasgos. Mas a gente não engole aquilo que nos faz mal, a gente cospe.
Tu passeias
pela minha cabeça e para que não passe disso, apenas te engulo. E engoliria
quantas vezes mais fosse preciso. Mas chega a hora que a gente tem que colocar
para fora, nem que seja obrigado. Nem que seja preciso alguém esmurrar minha
barriga, meu diafragma ou sei lá o que para que eu te cuspa. Para que eu volte
a respirar. Para que tua água saia de dentro dos meus pulmões. Para que eu desancore
de uma vez desse cais conturbado.
Para que tu, onda que és, não perturbes mais a
paz do meu mar.
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