29 de dezembro de 2014

Líquida

esse meu coraçágua
escorre demais
pra tudo quanto é lado

espera,
medroso,
o tempo em que tudo flua
feito rio jorrando da nascente
- puro,
como se novo:

livre





{coração-água,
aquário que guarda
tantos afetos afeitos
e ainda - e sempre - os desacostumados

meu coraçágua,
desses românticos últimos
e inconsoláveis:
perdidos.}



24 de outubro de 2014

apreensão

Queria lembrar
dos versos que pensei
num momento de epifania
- tão brusca
e ínfima -
enquanto escovava os dentes,


mas não recordo.



(inda tenha um pensamento
C O N S T A N T E :
A gente é igual
no sentimento)


"não fique triste
me promete
nunca desiste
de me amar
passou, passou"


19 de outubro de 2014

Arrebol

o céu
inspira
o sol
e só
amanhã
expira
de volta

respiração de cores
novos ares e calores
num só ato de sobrevivência:
puro oxigênio 


15 de outubro de 2014

Esses

a gente nunca sabe dizer
quando chega o S
no nosso nó

a gente nunca sabe dizer
quando sai o S
pra
virar
saudade



17 de setembro de 2014

porquês

tudo, 
toda essa loucura,
sempre acaba 

- sempre começa
                          

                na saudade. 



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21 de agosto de 2014

Engendramento

Construímos tantas diferenças
      Tantos trejeitos
                e gestos novos
      Tantos espaços
                cada vez mais
                l
                o
                n
                g
                o
                s 
                entre nós


As passagens das pessoas em nossas vidas
são dessas coisas imprevisíveis demais
- são dessas coisas necessárias demais:
                             firmam-nos pontos fortes
                             ou talvez desinteressantes
                             (nunca desimportantes)
  no peito nosso

                            e nessa nossa estrada,

                                           sempre tão cheia e corrida

                                                      sempre tão solitária e vazia

fotos de Neil Craver
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14 de julho de 2014

Sinestesias


A cor
e o movimento:
cor
a
ç
ã
o

O SOM:
escuto
 forte e pulsante
enquanto fecho os olhos 
e sinto tudo vermelho
quando no interior de minhas pálpebras
desenho os giros no espaço


Contrações do amor
e dos vasos sanguíneos
quando o agridoce 
salta na boca
e no peito florido



foto de Melanie Ziggel
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30 de maio de 2014

Sonial

Incertos ensejos
me levam
às velhas confusões de sempre

Sentimentos escancarados
se fundem com as impossibilidades
e faltas de coragem

- É ESCURO
(e escuto):
tudo me parece perdido
e bagunçado dentro de mim
encontro teus restos
e ainda falo os mesmos nomes nos sonhos


Tudo se repete e tanto e com tal força e muito e sempre


Ontem atendi três ligações ao mesmo tempo
três vozes se misturavam inside my head
e me diziam
e me confundiam
com tudo que eu queria ouvir
em différents langues que nunca soube falar:
                                       - DÓI ACORDAR -
                                       inconsciências refletidas em sonhos
                                       que só nos levam aquém



Ilustração de Tastequiet
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7 de maio de 2014

Caos ou perguntas de 5 meses atrás

o que é que se faz com os erros? com o efeito borboleta? 
o que é que se faz com o que não foi dito? com o que ainda está engasgado na garganta e toda vez que te vejo eu só tenho vontade de despejar logo tudo de uma vez ou de deixar simples sussurros no teu ouvido?
o que é que se faz quando se tem medo? quando não mais se joga nem arrisca?
o que é que se faz com o outro? com as próximas (não)possibilidades?
o que se faz com essa tua falta que me assalta - vez ou outra - nas lembranças? o que se faz dessa vontade de tu?
o que se faz com o gosto? o que se faz se fosse amor? se é?
o que se faz com saudade? 

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28 de abril de 2014

Das minhas fendas

para todos os lados que olho: falhas.
para todas as pessoas que olho: falhas.
para meu interior que olho: falhas. 
para todos os lados que olho: falas.
para todas as pessoas que olho: falas.
para meu interior que olho: falas. 
quando olho para ti:

mais falhas

e calas,
mais nada
.
.
.
onde e quando 
os erros
se esgotam? 
onde e quando
nossos tempos
se acertam?
onde e quando
(e será que)
a gente se encontra?
.
.
.
poucos passam por mim sem que eu sinta
todos tornam-se minhas fendas
(neste tempo de dúvidas,
sobram os sinceros)

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14 de abril de 2014

Dia 9 ou momentos de dúvidas e falsos silêncios

O som da madrugada
e aquele breve momento de dúvida se existe o silêncio:
                                    
                      escuto alguém aguando plantas
                             e alguém que passou de bicicleta
                        vejo a luz de um farol fazer sombra nos prédios
                               e elas dançam enquanto o carro vai embora:
                                                          -  daqui do sétimo andar
                                                         o céu parece um tiquinho mais perto
                                                        mas é só o gosto de ilusão


O céu tem aquela cor azul-escuro-que-vai-clarear
e as nuvens são quase laranjas
(reflexo dos postes de uma cidade que nunca se apaga)


Penso que minha vida vai se ajeitar
            (não sei quando nem como
             mas sou pouco e não deveria me preocupar tanto 
             nem ficar com medo de perder todas essas potenciais coisas que eu sempre acho que perco).

Alguém ainda rega as plantas 
A quantidade de carros na rua começa a aumentar
e escuto o som de suas passadas cada vez mais frequentes
                         .
                         .
                         .

Madrugada bota a gente pra pensar.

                         .
                         .
                         .

Faz calor.
As estrelas já quase se escondem
                      mas ainda resistem

Penso nas possibilidades de amores
que sempre
me escapam
que sempre
escorrem
pelos 
dedos
pelos 
pelos
pelos 
corpos
pelos
corações
pelos
caminhos

.
.
.

O céu clareia
e eu preciso PARAR
pra ver o dia começar
desse jeito bonito 
que apaga nossas memórias
nessa dormência de pensamentos
enquanto o dia acorda
- e eu ainda não dormi 



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18 de março de 2014

Perguntas encontradas em erros de grafia

quantos corações cabem numa pessoa só?
quantos corações cabem na tua pessoa só?
quantos corações cabem na nua pessoa só?
quantos corações cabem num momento só?
quantos corações se juntam num momento só?

quando os corações se encontram nesse caminho só?


(o peito nosso
  e essa nossa estrada,

sempre tão cheia e corrida
sempre tão solitária e vazia)


foto de Chema Madoz
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11 de fevereiro de 2014

n°1 ou sem título

 Tampo os ouvidos,
mas não há silêncio:
ainda escuto a bagunça
do lado de dentro
que ainda anda
batendo no compasso
do meu coração

Zumbido:
ESCUTO UM BARULHO DE COISA QUEBRADA
é como que baixo
e lento
mas constante

Existem vozes também
- misturadas:
escuto meu nome no meio do rebuliço de palavras

Escuto sentimentos
que me são fortes

Escuto
a força
do
v a z i o

edoamor

(sempre há o amor,
mesmo que pelas pequenas coisas)

Escuto minha respiração
e o desespero embaralhado
na minha cabeça

o silêncio
o silêncio
o silêncio

é

s u r d o

 jun/2013

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19 de janeiro de 2014

TENRO

suave, cedo e doce:
afável

essa coisa tão delicada
e dúbia
quanto os corações
que facilmente se partem
                      e nos cortam

nós:
alma branda
e carne mole

nós:
como crianças,
sensíveis aprendizes,
sendo roídas pelo tempo
e mastigadas pela vida

nós:
volúveis e voláteis
(esse pleonasmo de inconstância
                         ainda contínuo)
enroscados e presos

mas nunca
frívolos

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