Acabei de ler uma coisa que me
lembrou você, bem na metade do caminho, quando eu já vinha escrever qualquer
coisa, de qualquer maneira: “não procure a pessoa mais brilhante do mundo. Encontre aquela que te ilumina aos poucos, em alguns momentos. Quem brilha pra
sempre, já morreu”. Piegas, eu sei, mas todas as cartas de amor são ridículas -
não que essa aqui seja uma. Eu só queria dizer que tô cansada. Vivo cansada, só
não me dou conta. Quando percebo, vejo que minha vontade é de abrir meu corpo,
como se tivesse um zíper mesmo, e sair dali, migrar pra qualquer outro corpo,
qualquer um mais agradável, mais desconhecido. Ou me enterrar junto com minhas
memórias dentro de uma caixinha e virar lembrança também. Quando noto, assim,
às vezes, minha vontade é de sumir, desaparecer. Ver gente nova, poder fazer
diferente. Será que existiria a falta? Será que alguém sentiria a minha? Será
que a saudade ainda viria bater nessa porta perdida pelo mundo em que eu me
encontraria? Eu queria abrir o zíper de mim e jogar o coração fora. Pronto. Talvez
aí se resolvesse. Não, teria que jogar fora as memórias também. E agora? Sobrara-me
a luz. o que faço com isso? Você ainda brilha aqui dentro. Vezenquando, é
verdade. Mas não se joga luz fora, com o que mais se iluminariam as coisas? Mas
aquilo que brilha para sempre já morreu. Você é estrela infinda no céu do meu
peito: morreu, mas ainda brilha, escondida nos cantos de mim.
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9 de março de 2013
21 de outubro de 2012
Onda
Tu me apareces tão repentinamente
quanto te vais. Parece até que planejaste tudo para me deixar ainda mais
perdida. E eu com minha mania de pensar demais, de querer adivinhar, de buscar
explicações, de qualquer coisa que me acalme um pouco o coração. Mas nunca
consigo. Sou muito e não caibo dentro de mim. Esborro. Sujo o chão. Sujo quem
tenta limpar minha bagunça. Sujo quem quer me ajudar, mas, sem querer, não
deixo. Prefiro estar como estou, ser como sou.
Digo que vou embora, e vou. Estou
indo, meu bem. Devagarzinho, bem sabes, caso tu te arrependas assim, do nada,
por quase um segundo. Mas estou seguindo meu caminho, cada vez mais claro e
bonito. Tempo é mesmo dessas coisas relativas demais. Às vezes demora a passar,
mas ele também sabe voar. Outubro passou num piscar de olhos. Meu piscar de
olhos com você refletido nas minhas pálpebras. Meu cinema particular de nós
dois. Minha tela de nossas lembranças. “O rádio toca a nossa música... tão
bonita e estranha, amor.” Sempre toca. Várias delas. Algumas tu nem deves
lembrar. Aposto que não. Mas eu sei de todas, guardei um monte só para mim. Guardo
tudo, sou caixa de memórias ambulante, vagando esquecida por aí.
Mudei tanto,
benzinho. Porém continuo sendo contradição: como posso mudar tanto e tu continuares
no mesmo lugar?! Pareço quebra-cabeça daqueles que a gente nunca consegue
terminar de montar. Um mexe e remexe de peças que a gente não consegue
completar porque já tá viciado numa forma única de enxergar. Vejo tudo embaçado por dentro: visão
turva de quando acordo sem óculos, bagunça de gente que não vê o que tá fazendo
de errado – nem sabe como fazer o certo.
Eu ainda doo. Bem escondidinho, quando
invento de meter o dedo no peito, procurando o que já nem devia mais. Mais uma
dessas minhas manias desnecessárias que não consigo largar. Como boa
canceriana – há quem diga –, não consigo largar essa minha mania de passado. Mania de
guardar tudo dentro de mim e querer procurar de novo quando dá vontade, mesmo
sabendo onde vai dar.
Mania de teimosia, também. Tem coisas que não dá pra
mudar, já estão muito marcadas no fundo da gente. Mania de tentar explicar, como
já tentei tantas vezes dizer o que senti dentro de mim. Mas quem já se afogou tem uma mínima
noção da dor que é amar o perdido. A água entra nos nossos pulmões, a gente
quer chorar, mas não consegue sequer respirar; dói tudo dentro: dor estranha, rasgada,
inundada. A gente sente arder por todo o nosso caminho interior, bate lá dentro
e não acaba nunca, bate e não volta pro outro, bate, bate, bate e fica só na
gente. Tosse, tosse, tosse. Água para fora pelos olhos, boca, nariz. Amor para
fora pelos olhos, boca, nariz. Amor salgado também, igualzinho ao mar que nos
afogou. Igualzinho à onda que nos derrubou e embolou na confusão de areia e
engasgos. Mas a gente não engole aquilo que nos faz mal, a gente cospe.
Tu passeias
pela minha cabeça e para que não passe disso, apenas te engulo. E engoliria
quantas vezes mais fosse preciso. Mas chega a hora que a gente tem que colocar
para fora, nem que seja obrigado. Nem que seja preciso alguém esmurrar minha
barriga, meu diafragma ou sei lá o que para que eu te cuspa. Para que eu volte
a respirar. Para que tua água saia de dentro dos meus pulmões. Para que eu desancore
de uma vez desse cais conturbado.
Para que tu, onda que és, não perturbes mais a
paz do meu mar.
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26 de julho de 2012
Verde na memória
Lembro daquele dia verde. Nublado, mas verde. Era de um chove-não-molha impressionante. E tanto era, que ficamos nós dois ali, deitados em tua cama: eu tentando te convencer de que o dia valia ao menos um mergulho na piscina, e você dizia que ia começar a chover. E chovia, sempre. Você olhava nos meus olhos, eu olhava teus sinais e tentava ligá-los, fazer algum desenho no teu rosto; e aí meus olhos encontravam os teus, tão atentos e sorridentes em mim. Eu me perdia em você. Ria, chacoalhava pra lá e pra cá. Te beijava os olhos fechados, e te amava mais uma vez. Pelo menos eu tinha consciência do quanto estava feliz ali, naquele momento - e em tantos outros. Hoje, só me resta saudade. E quando o dia é assim, parecido com aquele verde-nublado, meu coração dói, meu corpo sente a falta do teu contorno. Dias assim me fazem querer estudar física e o que mais for necessário só pra poder construir uma máquina do tempo e te viver mais uma vez, sem ser dentro de mim desse jeito.
25 de junho de 2012
Das cartas sem destinatário
Precisava te escrever alguma coisa. Por
mais que eu nunca te entregue essas cartas que ainda teimo em fazer; por mais
que a gente não se encontre no mesmo caminho. Eu quero te lembrar sempre, mesmo
que seja por uma dessas coisas que te escrevo antes de dormir porque preciso te
colocar pra fora de algum jeito para que eu não passe mais uma noite inteira
com você dentro da minha cabeça. Já faz tanto tempo, e tudo continua sendo teu
aqui. Sinto tua falta quase todos os dias: me preenche e nunca me deixa em paz.
A gente nunca sabe o que se passa dentro do outro... e talvez continue sempre
assim. Mas não minto: bem que eu queria poder entrar em você e ver com teus
olhos, me sentir na tua pele, tentar decifrar tua mente, e fazer qualquer coisa
mais que eu possa estando dentro de você. Eu quero te lembrar porque você me
dói. E dor de amor, benzinho, talvez não passe nunca.
Com todo o amor que eu gostaria que já
não existisse mais dentro de mim,
Aline.
Aline.
27 de março de 2012
A carta que nunca entreguei
Quero
teus pés colados nos meus, feito minha boca na tua. Quero teus ossinhos
marcando meu quadril feito teus olhos marcam minha alma. Quero tuas palavras
marcando meu coração feito teu amor faz comigo. Quero mais de você, quero mais
de mim. Quero mais de nós dois. Te quero sendo comigo. Me diga, me mostre, me
olhe, me ame. Canta outra vez no meu ouvido que quer o nosso bem, que faz tudo
pelo nosso amor. Não perca o costume de me desequilibrar, muito menos de me
segurar no último instante. Contorna meus lábios com teus dedos e para bem na
ponta do meu nariz; me olha bem no fundo de mim e diz com aquele teu olhar o
que sempre me disseste.
Dia
desses, antes de dormir, percebi uma coisa. Pensei que o amor fosse meu, mas não:
é todo teu. Guarda com cuidado, num canto escondido qualquer que seja. Lembra
dele, vez ou outra. Olha.
Sente
saudade,
como
eu faço.
em 24.02.12
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