8 de dezembro de 2010

Ponto fraco


 Nem sei mais como é que era quando eu não pensava tanto assim em você. Talvez eu só tivesse a cabeça mais livre, desocupada. Agora tudo que me vem à mente são teus trejeitos, tua cara lavada de quem faz o que quer e não dá a mínima pra ninguém, a facilidade com que você me deixa boba - do tipo besta mesmo -, esse teu jeito que não consigo ler, coisa que muito me encantou - e encanta.
 Tem vezes que nem estou fazendo nada, tudo em branco em minha cabeça e quando resolvo pensar nalguma coisa, vem logo você invadindo meu espaço, entrando na minha cabeça como quem entra num quarto sem pedir licença. É engraçado quando me pego fazendo isso, lembrando de você por nada, só porque meu coração decidiu ser cérebro e imaginar o que você estaria fazendo, se alguma vez já se lembrou de mim pelo mesmo motivo, simplesmente por lembrar ou por ter um mínimo de afeição ou por qualquer outro motivo, nem que fosse uma música que você achou que eu gostaria. Queria poder saber o que é que se passa nessa sua cabeça por pelo menos três instantes. Não me importa que três instantes sejam medidas minúsculas, eu só queria tentar te entender, nem que fosse apenas por esse pouco tão minúsculo. 
 Venho pensando tanto em você. Não sei o que é que me dá. Parece que qualquer coisa está ligada a você: a cidade que passa correndo, meus olhos lacrimejando com o vento, as luzes borradas, as gotas apostando corrida na janela. É assim mesmo que o pensamento que tem teu nome gravado aparece: do nada. Até mesmo quando estou num ônibus quase vazio, voltando para casa apenas pensando em coisas bobas pra me distrair, e clique: você. É como um clique mesmo, como se fosse um botão automático, apertando em cada momento no qual, supostamente, eu me esqueço de você. 
 Penso tanto em você. Me alivia. Tem sabor quente, aconchegante, como se pedisse pra eu ficar. Mas não precisa pedir, estou aqui, do teu lado, com minha mão colada na tua e dizendo "te quero sempre assim". Você me diz que está tudo bem e deita no meu colo, me chama de benzinho e ficamos tanto tempo desse jeito que parece que nunca vamos soltar. Mergulho em teus olhos, me esqueço por lá, me perco em você.
Tudo faz clique de novo. Parece que vai quebrar. Volto pro começo e continuo pensando em você. Me alivia. Tem sabor quente, aconchegante, como se pedisse pra eu ficar. Mas não precisa pedir, não. Eu fico... Você é meu ponto fraco. Ir, dói. 



17 de novembro de 2010

Espera

 Vivo por aí. Sozinha, distante, longe. E é tudo culpa dessa falta, dessa ausência se fazendo presente... Dessa saudade toda que mora em mim. Quando penso que falta pouco pra isso tudo acabar, talvez um dia ou um mês, quem sabe um ano ou bem menos, a saudade resolve acordar e brotam novamente aqueles pensamentos que me fazem querer voltar os dias, os segundos e as palavras ou nem sequer ter inventado de viver alguns momentos, mas acabo escolhendo por não regredir nem tentar nada de novo e prefiro arcar com as consequências das minhas escolhas. E a cada dia que passa é sempre a mesma batalha pra que o tempo passe correndo e que isso tudo acabe logo de uma vez, mas não acaba nunca e eu espero por esperar, pelo simples fato de aguardar por algo que não vem, como que mantendo uma esperança sempre viva. Espero, espero, espero, espero. E é tudo que faço. E parece que será tudo o que farei. Esperar é parar o tempo e eu não quero vê-lo parado: eu quero mais é que o tempo crie asas, voe e leve tudo o que puder carregar consigo. Cansei de transbordar todo o sentimento que tenho. Prefiro que levem, que roubem, que apreciem, que desgostem, que sumam com ele daqui. Se antes eu já não suportava aquela história de "toca ou não toca", agora nem sequer aguento qualquer coisa que seja morna. Definitivamente, quero que seja ou oito ou oitenta e o que estiver no meio não me serve. Preciso de alguém. Um alguém para ouvir o que tenho pra dizer, para falar o que ele quiser, pra eu tocar como se isso fosse um jeito de dizer que estou aqui e que, reciprocamente, ele me tocasse como se me correspondesse. Preciso de um daqueles amores que se tem sem se ter. Um daqueles desconhecidos, que todo mundo espera um dia encontrar. Um amor construído por nós e guardado num canto tão escondido que quase nenhum olho enxerga. Nós, eu você e ele que temos um coração e uma mente funcionando a mil quilômetros por hora, precisamos de pelo menos uma certeza em meio a tantas incertezas desse mundo louco e é por isso que tenho a necessidade de saber, ao menos, se esse sentimento existe nalgum lugar, porque preciso estar certa de que não inventei ou acreditei nele à toa. Seres humanos têm essa mania de explicação e crença. E creio eu, que um dia isso vai acabar. Um dia desses, enquanto eu estiver olhando o céu e procurando formas nas nuvens, quem sabe. Mas espero que isso acabe logo... Já cansei de brincar nesse vai-e-vem com meu coração. Meus olhos esperam, minha alma transborda e meu coração sempre estará do lado de fora. Espero. E o tempo passa. 



5 de novembro de 2010

The love you take is equal to the love you make

Andava sempre no mesmo passo apressado, como se isso fosse um jeito de correr para onde queria ir e de parar o tempo, como se existisse alguma maneira disso acontecer. Mesmo com toda essa pressa, ela observava atentamente o que estava ao seu redor, embora as coisas parecessem um pouco borradas, ela sempre reparava em tudo. Apesar de detestar rotina, destino e quaisquer outras coisas que fossem planejadas demais, ela sempre fazia o mesmo caminho na hora do almoço: saía voando do trabalho direto para a sua lanchonete preferida, uma no estilo dos anos 60 onde a qualquer momento tocava Beatles. Toda vez que voltava para o trabalho ela desejava parar o tempo só para poder andar mais devagar, pra não ter que ficar vendo nada borrado e pra poder ouvir o restinho de música que ficara na sua cabeça, mas nunca atendiam o seu pedido e ela acabava indo-se embora quase que correndo mesmo, como quem tem asas nos pés e vendo tudo passar rápido demais. Rotina pra ela era como uma espécie de regra, que existe para limitar as pessoas, e ela detestava ser limitada pelos outros; mas por incrível que pareça, ela não se incomodava nem um pouco com essa rotina de trabalho/lanchonete-que-toca-beatles/trabalho, talvez por ter sido ela a criadora do costume ou só porque sabia que um dia enjoaria de estar fazendo tudo sempre igual. Por hora, ela não se cansava de pegar o mesmo caminho nem de sempre brincar com as listras do chão, talvez se cansasse do trabalho vez ou outra, por estar cansada mesmo ou só por querer chegar a casa e deitar a cabeça no travesseiro pra poder sonhar com o amor que sempre quis ter, mas enquanto não enjoava, ia fazendo igual sem importar com a chegada do dia em que ela cansaria. A vida dela estava assim mesmo, repetitiva, cheia de correria e sonhos deixados de lado e ela mesma sabia que aquilo ia logo mudar, porque o destino é metido demais pra querer deixar alguma coisa acontecer por vontade dos outros.
E não deu outra: cansou-se. Num outro dia acordou cedo, botou Little Joy pra tocar enquanto comia, tomou banho, colocou um vestido simples e quando já estava fechando a porta para ir trabalhar, deu bom dia para o sol. Trabalhou num ritmo tão apressado quanto seu passo e resolveu que só iria almoçar duas horas depois do que estava acostumada. Passou-se o tempo e ela foi para a velha lanchonete-que-toca-beatles por um caminho diferente e andou mais devagar, olhando para as novas coisas que encontrava no caminho de um jeito encantado e calmo. Foi nesse olhar mais calmo e menos borrado que ela percebeu um cara que estava sentado na mesa ao lado da sua, com dois amigos que provavelmente deveriam ser apenas colegas de trabalho. Esse cara parecia estar sozinho, sua mente estava nalgum lugar totalmente distante daquela mesa onde seus colegas conversavam alguma coisa sobre futebol e mulher. De repente, ele começa a se mexer como se estivesse dançando "All my loving". A primeira impressão que se tem é que aquilo era, no mínimo, estranho, afinal, um cara que não está nem aí para nada e olha para o vento não deve ser alguém normal... Ou não deveria. Mas era na cabeça da garota do começo da história. E é aqui que tudo muda, quando ela se atreve a dizer:

- Ei! É impressão minha ou você está dançando essa música que tá tocando? Hahaha.

Ele olha pra ela com uma cara de "mas quem diabos é você para estar falando de mim?", mas, mesmo assim, responde rindo:

- Dançando, dançando, eu não estou, afinal, só estou sentado tentando fazer um balanço. Hahahaha. Mas peraí, não tem como ficar parado numa música dessas! É boa demais... Eles são geniais!
        - Ah, eles são indescritíveis! Muito bom mesmo. Mas enfim... Deixa eu começar de novo: Oi, Meu nome é Luísa! E o seu? Hahaha.
        - Oi, Luísa! Meu nome é Gabriel. Hahahahaha.

        E continuaram conversando até acabar a hora do almoço e cada um ter que voltar para o seu trabalho. Não deu para falarem muito nem para se conhecerem bem demais, mas qualquer um que tivesse visto os olhos deles enquanto falavam de uma afinidade ou outra, veria que dali poderia nascer bem mais do que uma amizade baseada nas coisas em comum. Trocaram telefones e ambos voltaram correndo com o velho passo apressado, mas dessa vez apressados para que o tempo passasse logo e alguém resolvesse ligar.
         O primeiro a fazer alguma coisa foi Gabriel. Assim que saiu do trabalho, mandou uma mensagem: " 'Something in the way, she knows... And all I have to do is think of her' - Beatles cai sempre muito bem, né? Vai fazer alguma coisa hoje? A gente bem que podia continuar nossa conversa mais tarde... Beijo." E quase que na mesma hora - talvez só estivesse esperando ou na dúvida se fazia algo ou não -, Luísa respondeu, mais ou menos assim: " 'Something' é uma das minhas músicas preferidas, acertasse em cheio! Hahaha. Gosta de sushi? Tem um aqui na minha rua que é uma delícia! Beijo."
        Gabriel nem era muito fã de sushi, mas acabou dizendo que adorava e três horas depois lá estavam eles no tal sushi-que-é-uma-delícia, com ele enrolando ela, conversando mais do que comia e inventando papo até onde não tinha, só para que Luísa não percebesse. Ela fingia que não percebia, mas a essa altura já tinha notado até a cor da meia que ele usava. Conversa vai, conversa vem, acabaram ficando por lá até não ter quase ninguém e eles se darem conta que se não fossem embora, seriam sendo chutados dali.
 Ele foi deixar Luísa em casa, afinal, já eram pra lá das 2h30 da manhã e ele não iria deixá-la ir andando para casa. Chegando lá, Luísa convidou-o para entrar e depois de um certo blá-blá-blá sobre incomodar ou não, ele acabou entrando. Conversaram distraidamente por cerca de uma hora e meia, quando ele olhou para o seu relógio e viu que já passavam das 4h da manhã.
- Eita! Já são 4h15, Luísa. Vou nessa. Tá na hora, né? Hahaha.
- Vai não, menino. Fica aí! A gente ainda tem tanta coisa pra conversar, não acha não?
- Acho. Eu não queria ir agora, mas é que tá ficando tarde demais. - E foi aí que ele cantarolou: - "I don't want leave her now..."
  E ela acompanhou:
- "...You know I believe and how". Usar essa música é pedir pra ficar! Hahaha. Fica mais, vai?
- Fico.



E ficou não só até amanhecer, mas ficou por muito tempo na vida dela. E fica. E ainda continua lá.



22 de outubro de 2010

Só por uma vez, um fim



Eu queria conseguir só por uma vez, ao menos, parar todos os meus pensamentos. É que às vezes cansa tentar tantas vezes e não conseguir pôr um fim nisso tudo. Queria ter dentro de mim para sempre a paz que me invade quando paro pra olhar o rio e sinto o vento batendo no meu rosto. O problema é que essa calmaria nunca fica; ela é rápida, dá o gosto e corre para o outro lado. Minha cabeça vai à mil, não para em momento algum, sempre tem uma coisa para ser pensada, para ser remoída, para bater numa mesma tecla, para mudar meu humor. Seria tão mais fácil se a gente não complicasse qualquer coisa que vem a nossa frente. Porque é que a gente tem que lidar com seres humanos? Todos eles são fadados a errar e errar e errar constantemente. Eu, ele, você. Todos nós erramos e erraremos muito daqui pra o final disso que chamamos de vida. Eu sei, você sabe, mas todos nós continuamos fingindo não saber de nada. E pra quê? Pra culpar um ao outro quando algo dá errado, quando algo sai da reta que traçamos para andar. Esquecemos que nada é linear. O tempo passa, o mundo dá voltas e acabamos parando no mesmo lugar, andando por linhas tortas - e ainda achando que elas são lineares - e entrelinhas mal entendidas por aqueles que nunca entendem a magia que cabe num momento de loucura e silêncio. Talvez a vida seja só essa loucura que a gente vive a cada segundo, milésimo e instante, e juntando tudo isso que a gente passa, quem sabe a gente não acha um final feliz depois? Ainda tem tanta pedra, caminho e chão pra gente andar. São infinitos pensamentos que correm na minha mente, são milhares de sentimentos a correr por minhas veias, são saudades a escorrer por meus olhos, são risadas vermelhas, são sorrisos vindos do coração, são batidas de carnaval e samba dentro de mim, são noites e mais noites arrumando um jeito de disfarçar o que qualquer um pode ver olhando para mim. É tanta coisa junta, tanta mistura, tantos “eus” dentro de mim mesma… É tanta correria pra achar uma saída, que é por isso que minha cabeça vai à mil sem parar. Tá tudo bem, tudo sempre estará. Acabará melhor quando num dia desses, pode ser qualquer dia mesmo, me apareça alguém que pense em compartilhar dessas mesmas loucuras, magias e silêncios da vida. Talvez seja aí que todo esse infinito torne-se finito ou dê uma pausa pra minha alegria estar em foco. É aí que o carnaval que vive dentro de mim sairá pela avenida, sentindo-se completo. Deve ser num desses momentos em que se sente por completo toda a essência de ser e estar. Deve ser aí o final feliz com direito a beijo de fim.

8 de setembro de 2010

Forçando a memória











Agora dei pra me fazer lembrar todo santo dia que meu coração não aguenta mais toda essa invenção de amar - ou não deveria. Colei atrás da porta um post-it que tem assim:



"Meu amor,
Você não se cansa dessa vida, não? Dá um tempo pra esse teu coração...  O coitado já está cansado de tanto amar."    




 Leio e releio todos os dias, mas isso é que nem regra: coração nenhum obedece.



29 de agosto de 2010

Querer

Me deixa pintar a vida como eu quiser! Cansei de tantos dias cinzas dentro de mim. Eu quero pintar minha alma de todas as cores; quero libertar o meu pássaro azul, sem medo… Eu quero ter a vida na sua forma mais crua e sincera que se pode ter. Quero me jogar nesse mundo, abrir o coração pro vento, deixar o tempo levar consigo o que quiser de mim. Quero que você me invada, me explore e conheça todos os cantos que existem no meu interior. Quero saber falar como quem grita o que sente, como quem escolhe e inventa as melhores palavras para se expressar. Quero levar comigo toda a alegria que puder, mas quero que exista um pouco de tristeza também... Ninguém aprende só com felicidade. Quero o óbvio, o intocado, o distante e a mesmice de todos os dias. Quero sentir todas as saudades: a de quem está ao seu lado, a de quem está em outro canto do país, a de uma época, a de um amor, a de uma voz, a de uma música, a de um livro, a de um sábado à tarde, a dos cheiros... Quero tanto que nem sei mais o tanto que quero. Quero desaprender a medir os sentimentos; quero aprender a ser mais de mim, cada vez mais. Quero sentir e tocar essa vida com a palma da minha mão. Quero que minha vida seja vasta; tão imensa que não se possa pegar com uma mão - nem duas -, mas que caiba inteira na minha memória, como uma doce lembrança de dezembro. Quero que tudo que vivi, vivo e viverei seja como um souvenir, um presente mesmo, escrito e feito por mim, de um jeito indecifrável para os que não têm dentro de si a magia de ver através do comum. Quero minha vida dentro de um sonho. Não um sonho impossível, mas um sonho daqueles que a gente realiza, que só é preciso vontade e enxergar além de um horizonte distante. Quero o tudo, o nada e mais um pouco... Posso parecer gananciosa, mas não sou não. Só sei que quero poder espremer e tirar o sumo dessa vida, fazer com que ela seja deliciosa, sem amargar no final. Eu só quero poder viver. Viver, no sentido mais amplo da palavra, da forma mais intensa e despreocupada que se possa imaginar.


Quero viver o mundo que floresce em mim todos os dias, com todas as borboletas que eu tiver direito!





(E quero que você venha comigo.)

8 de julho de 2010

Coisa minha



Fico fascinada ao me deparar com qualquer pôr-do-sol. Nunca escondi isso de ninguém. Me perco nas cores que pintam o céu. Penso, repenso, relembro, esqueço. Correm os minutos, pauso o tempo só pra mim. Transbordo sentimentos. Se pararem para me observar, notarão minha distância dali: transporto-me para meu interior e lá descubro a primavera e o beco sem saída - e qualquer outra estação meio fria - que existem permanentemente em meu ser. Transpareço minhas cores, minhas dores, você, nós, minhas invenções, saudades, meus versos e sentimentos, e percorro um longo caminho até não mostrar nada daquilo que sou. Pareço flutuar nalgum mar invisível, num mar de lembranças. Afogo-me e perco o tempo que havia parado... Sempre acabo perdendo algum pedaço nessas viagens de mim pra mim. Já não me resta nem mais um segundo, e todas as cores secaram.
Ainda me resta um brilho refletido no mar e infinitos pontos espalhados num lençol preto sobre minha cabeça. Parece que nunca vai chegar ao fim. Misturo uma dose de amnésia com outra de desapego, mas nunca vai-se embora o amor que vive dentro de mim. É característica minha, devo ter algum erro de fabricação, talvez algum problema com entregar-me, não sei. Vivo com essa coisa dentro de mim; esse amor, esse jeito inconstante, essa mania de ser jogada para os sentimentos. Sou toda feita do avesso, com a alma do lado de fora, mais fácil de pegar. A noite passa rápido. Canto seu canto com ela e meu coração bate no ritmo de alguma canção sem sentido. O tempo passa cada vez mais rápido: corre, voa, nem o vejo mais. Invento de contar as estrelas. Gasto aquilo que já nem tenho tentando limitar o infinito. Busco limitar a mim mesma, tentando me resumir numa frase, ou talvez um parágrafo. Não consigo. O dia já começava a raiar, e eu perdia meus minutos tentando entender o que é que acontece nesse meu interior bagunçado.
Meu coração cantava num ritmo diferente, e o sol acompanhava-o. Subia rápido, mas era tão lindo, que nem tive coragem de pedir pra ir mais devagar. Rompia o silêncio de um céu roxo, com uma delicadeza que só ele poderia ter. Lembrei-me de você, por algum motivo que não sei explicar. Não sei, deve ter sido essa história de romper delicadamente, embora você tenha feito o oposto comigo. A alvorada chegava ao fim, e eu não conseguia pensar em mais nada que não fosse o sorriso que brotara no meu rosto quando me veio à mente o seu sorriso; aquele fácil e quente, o que eu mais gosto. Fico perturbada toda vez que lembro como você mexe comigo assim, tão deliberadamente fácil. Estranho como você consegue mexer com os cantos de minha boca de um jeito tão natural; me assusta.
Acho engraçado como eu tenho essa mania de mergulhar em mim, a cada pôr-do-sol. Viajo, me transporto, saio de mim, mas sempre acabo no mesmo lugar: você. Amanhã, depois, acontece de novo, e continuo aqui, esperando. Nunca acaba... Tudo se renova, todos os dias, a cada crepúsculo. É que eu tenho essa mania de ir por aí, fazendo como bem quero, mas nem mesmo eu me obedeço. Tenho mania de inventar de ser só coração, mas não aguento.


Tenho mania de tirar tudo do peito.
 Mas o dia tem mania de colocar tudo de volta.

24 de junho de 2010

Em tempo

   Meus olhos batem nos teus; te encontro. Pra quê? Você sorri, ativa o descompasso do meu coração. Disfarço. Ou pelo menos acho que estou disfarçando essa minha cara de bobo sempre que te vejo. Eu tenho que disfarçar, não importa... Não posso deixar nada transparecer assim, como realmente é. Qualquer deslize, e tudo aparece.
    Prefiro que continue assim, com essas mentiras pra mim mesmo. Prefiro que continue desse jeito - relativamente - quieto pro meu coração. Prefiro só te olhar de longe, sem você perceber, e pensar como seríamos se tivéssemos uma chance de fazer dar certo... De te conquistar, de te ter assim, toda pra mim.    
    
    Me escondo, mas sei que não posso fazer muita coisa... Num dia desses, o amor me acha de vez.



7 de junho de 2010

Mania

     



         Eu até que podia tentar dizer o que acho, mas não vou, não. Não tenho tempo para perder tentando colocar  em palavras algo que só poderia ser explicado com gestos. Uma conversa de olhares, quem sabe... Mas como? Você sumiu, desbotou junto com a cor da nossa foto. Eu podia até tentar dizer com palavras como você chegou e ficou, mas não vou. Hoje eu não preciso tomar minha dose de você; não preciso me lembrar disso, nem de nada... Hoje eu não quero lembrar que sinto saudade. 
       É tudo tão complicado quando eu tento explicar... Eu não vou explicar, não. Eu só sei que tenho saudade, é isso. Saudade de quando você falou comigo pela primeira vez, me olhou nos olhos e sorriu. Era tudo tão simples, sem explicação... As coisas só aconteciam, sem precisar de um porquê. 
       Nós não precisávamos de palavras: não havia nada que seus olhos dissessem que os meus não pudessem entender. Acho que desaprendi a me explicar daí... É mais fácil se acostumar a só sentir e a falar de um jeito inventado. 
       Seria tão bom - e estranho, admito - se nada disso tivesse acontecido. Nem você, nem esse seu sorriso, nem nossos gestos, nem o perfume quente e doce que você deixou em mim. Esse perfume que me acompanha desde o dia em que te vi e você falou comigo pela primeira vez; você me olhou nos olhos e sorriu. Porque tudo tinha que ser tão complicado? Essas coisas tem mania de ir e voltar nas minhas lembranças... Elas bem que podiam ficar paradas, guardadas lá no fundo, pra quando eu te ver, não ficar com o coração pulando de saudade ou o que quer que seja. 

       Pra que eu fui inventar de lembrar disso tudo? Que mania de amor que esse coração tem. 

4 de junho de 2010

Sem tempo nenhum, só primavera

Quando olhei bem no fundo dos teus olhos, não acreditei no que eles me diziam. Eles nem sequer falavam nada; gritavam um adeus, sem um porquê ou alguma razão. Será que tudo isso aconteceu mesmo? Queria que você não tivesse ido embora... Às vezes imagino que você está atrás da porta, só esperando que eu volte pra me dizer coisas de amor.
Foste embora tão repentinamente que estranhei: ainda permaneces em mim. Teu cheiro, tua cor, teus olhos, tuas palavras sussurradas, tuas -nossas - músicas, tua voz, teu riso contagiante, tuas mentiras sinceras e histórias mal contadas... Porque não levaste os teus próprios pedaços? Já cansei de carregá-los pra qualquer lugar que vou.
Sabe-se lá porque que eu fui inventar de te fazer de abrigo. Eu sempre soube desse teu jeito desapegado de tudo, mas quem manda ter um coração cheio de defeito? Pedi pra trocarem assim que descobri o que havia de errado, mas me disseram que não tem garantia. Se quiser conserto, tem que esperar por alguém que queira fazê-lo. Mas quem? Parece que ninguém mais tem esse problema.  Repito pro meu coração inúmeras vezes: "descansa, coração, descansa... amar não é pra você", mas ele não obedece, afinal, não seria agora que ele começaria a acatar minhas ordens. Ama desgovernado e não tem nada que o impeça quando ele realmente quer. Vai no compasso da dança que lhe convir - ou não -, e não escuta mais ninguém, só seu próprio som.
Fecho os olhos para deixar de pensar um pouco em ti e mesmo assim, só te vejo. Meu coração bate com teu som, e mesmo que eu não queira, cada palavra minha tem uma ponta tua. Cansei de tentar te evitar... Não me cures mais de você, só volta e fica ao lado meu. Recuperaremos o que foi perdido, dentro de nós só haverá primavera...





Quando voltares, meu bem, não haverá mais hora... O tempo esperará por nós, para guardar nosso momento, como se fosse uma caixa de lembranças. 

19 de maio de 2010

Fica

      

         Talvez seu sorriso ainda brilhe lá no fundo das minhas lembranças. Lá no cantinho, bem escondido, pra ver se não aparece... Pra se esconder de mim mesma. Na verdade, o problema é que você anda se escondendo por dentro de mim esses dias, com medo de que eu lhe pegue e lhe tire de onde está. Será que você não aprende que não te quero fora de mim? Como pode você ver meu sorriso e não entender que ele ainda brilha pelas borboletas que você traz ao meu estômago? Entenda: eu sempre fui sua, e se um dia, por ventura, deixar de ser... Ainda serei: no meu inconsciente tem uma parte que não suportaria ficar sem você.
         Você vai (re)aparecendo devagar, ficando mais evidente em mim. Agora, meus olhos refletem os seus. Suas cores, suas vontades e seu horizonte. Buscamos um mesmo fim, um mesmo nós. Estamos quase como um só, e você já parou de se esconder. Você vai ficando, e me levando nesse passo, só com o som do meu coração, fazendo uma música só nossa.
         O tempo já se foi, passou. Você ficou e eu só faço cantarolar aquela música de Chico Buarque, para lhe lembrar todos os dias que não precisa se esconder em mim de novo. Aquela, "Fica". Canto toda, e quando chego na minha parte preferida, repito até cansar.
         Repito, repito, repito... E quando canso, meu coração toca nossa música, cantando assim: "Mas fica, meu amor... Quem sabe um dia, por descuido ou poesia, você goste de ficar".
      

11 de maio de 2010

Sem cor, na memória


   

       Preenchi as linhas de preto
    Mas o vento levou tudo
    E não me sobrara mais nada
    Nem sequer uma palavra desbotada

    Agora as minhas palavras voam
    Nuas
    Sem graça
    Sem nada
    Só com amor
   
    Mas as minhas palavras
    Continuam as mesmas
    Intactas
    Caladas

    Só inalam
    Exalam
    E guardam
    Você

7 de abril de 2010

Palpite

       
       Julia é uma mulher que tem lá suas feridas, umas já fechadas, e outras bem escondidas; tem sempre um sorriso no rosto, independente de como esteja por dentro; é apaixonada por música, cinema, Vinícius de Moraes e brigadeiro; tenta não se arriscar tanto quando o assunto é coração – embora não tenha muito sucesso quando tenta evitar –; ama o sol e adora um dia de chuva, daqueles pra ficar embaixo do cobertor, vendo filme.
        Rodrigo é egoísta, talvez até demais; não é daqueles que contam a sua vida de primeira e diz “acabou”, ele é completamente o contrário; às vezes surpreende como ele é tão complicado e difícil de entender; gosta do sol, mas prefere uma boa chuva; não é lá muito preocupado com o futuro; gosta de observar os sorrisos dos olhos – diz que é o mais sincero – e adora soltar umas cantadas ao pé do ouvido só pra poder ver um sorriso envergonhado.
         Embora possa não parecer – ao menos nesse pedacinho contado de cada um -, eles são umas das pessoas mais parecidas que eu já vi... A maior diferença é que Rodrigo tem uma namorada, e o maior problema foi o destino tê-los apresentados na hora errada.
 Ou não, vai ver que era pra ser assim mesmo: um amor incomum, que dispensa explicações; que só de olhar, você já entende. É exatamente como Rodrigo definiu: esse amor deles é uma espécie de amor-amizade.
        Bem, eles se conheceram num bar, e Julia nunca pensou que isso viesse dar em algum lugar, muito menos nessa amizade que eles têm hoje... Afinal, a primeira coisa que Rodrigo disse para ela foi logo uma reprovação. Ele a viu pedindo cachaça, olhou estranhamente, e deve ter pensado algo como “porque diabos uma mulher ia pedir cachaça? Ela parece tão frágil! Deve estar é querendo afogar as mágoas na cana mesmo”, quando falou:
        - Cachaça? Mas que coisa feia, rapaz!
        Julia o olhou com uma cara um tanto quanto desprezível, em relação ao comentário dele, mas logo abriu um sorriso e soltou sem nem pensar:
        - Mas o que é que tem de feio? Nunca visse uma mulher beber cachaça não, foi? Hahahaha.
        - Claro que já, mas é que você parece tão...
        - Frágil? Eu sabia que tu tinha pensado alguma coisa desse tipo...
        - Bem, era o que eu ia dizer... Mas é que não sei explicar, eu acho que não combina muito bem contigo. Além do mais que cerveja é bem melhor, não acha não?
        - Hahahaha, eu não gosto muito de cerveja não, ainda tô aprendendo a gostar. Mas e aí, me conta o que tu pensou quando me viu pedindo cachaça?
        E daí em diante, começaram a conversar sem nem saber o quão especial um seria para o outro.
        Aos poucos, foram se descobrindo... Era como se em cada dia, Rodrigo contasse um capítulo de sua vida – o engraçado é que ele ainda não acabou o seu “livro” até hoje – e Julia contasse um pedacinho do que ela era. Descobriram gostos iguais para tudo: pra música, pra sentimento, pra escrever, pra olhos e pra sorrisos. O tempo passava rápido para eles, quando na verdade passava tão lento que só fazia uns três meses que eles se conheciam... E mesmo assim, já tinham um laço tão forte como alguém que se conhece há anos.
        Num dia, sem nem ter porquê, discutiram que sobre o destino. Disseram que ele havia se atrasado, que havia feito as coisas numa ordem inversa, que eles deviam ter se conhecido antes, só pra ter mais tempo. Mudaram de assunto. Falaram sobre alguns textos, uns filmes e sobre o clima. Caíram no assunto “nós”. Discordaram e concordaram, ficaram sem resposta e sem saber o que dizer. Por fim, chegaram numa conclusão: que deixasse a vida levar, porque o que tivesse de acontecer, iria acontecer de todo jeito.
        Ficaram por quase uma semana sem se falar – o que era muito para eles -, até que Rodrigo ligou pra Julia e cantou:
        - “Tô com saudade de você, debaixo do meu cobertor. De te arrancar suspiros...”
        - “... Fazer amor.” Que música mais indecente pra cantar pra mim, num acha não? Hahahaha.
        - Hahahahaha, acho não. Tô com saudade de você... Vamos sair? Agora?
        - Agora? Às onze e meia da noite?
        - É, agora! Bora pra aquele bar, onde a gente se conheceu?
        - Tá bom... Vou só trocar de roupa e a gente se encontra lá em quinze minutos, tá?
        - Tá certo, não demora! 
        - Relaxa. Beijo.
        Julia desligou o telefone e ficou só ouvindo o barulho que seu coração fazia... Ou era amor, ou era saudade. Ela só não sabia bem do que se tratava.
        Quando Julia desligou, Rodrigo correu pro banho. Não conseguia parar de pensar no tamanho da saudade que tava sentindo. Saudade do sorriso dela... Das conversas, do carinho. Saudade deles dois.
        Julia chegou, e cinco minutos depois, Rodrigo também. Sentaram-se, ele pediu uma cerveja e falou:
        - Cachaça, senhorita?
        - Hahahaha, não, engraçadinho. Para você que não sabe, agora eu tomo cerveja – e o olhou desprezando o comentário dele de novo.
        Parecia que estava tudo igual. O mesmo lugar, o sentimento, eles, a amizade... Tudo estava como era pra ser. Ficaram por lá até quase uma hora da manhã, e nesse tempo, conversaram muito; tanto, que não sei como eles ainda tinham do que falar.
        Foram juntos até o carro, estava chovendo. Antes que Julia entrasse em seu carro, Rodrigo a puxou e sussurrou no ouvido dela:
        - Me diz como é que você conseguiu me viciar assim, desse jeito, me diz?
        - Só te digo uma coisa. Ou melhor, duas. Uma: nem venha com isso agora... Pare. E outra: eu tenho um palpite. Sobre a gente. 
        - Como é que eu posso parar com você sorrindo pra mim desse jeito e com seus olhos âmbar me olhando assim?
        - São verdes, já disse.
        - Pra quê tu insiste que são verdes? Âmbar é muito mais bonito.
        - Então tá bom, eu deixo que eles sejam âmbar só pra tu.
        - Hahahaha, obrigado. Me diz aí, qual é o teu palpite?
        - “Eu sinto a falta de você, me sinto só... E aí, será que você volta? Tudo à minha volta é triste... E aí, o amor pode acontecer. De novo, pra você, palpite.” Era esse.
        Rodrigo puxou-a pra mais perto e disse, perto da boca dela:
        - “Tô com saudade de você, do nosso banho de chuva, do calor na minha pele, da língua na tua”. E esse era o meu pra você.
        Beijou-a.
        Na cabeça de Julia vinham milhares de coisas para serem gritadas, mas ela só conseguia mesmo era pensar que acabava de descobrir se era amor ou se era saudade. E não era nenhum dos dois.
        Rodrigo não conseguia pensar em mais nada, só na chuva fria e o beijo que o esquentava por dentro, e na vontade de ter Julia sempre por perto.
        Soltaram-se. Julia o olhou com os olhos cheios da confusão que brotara na sua cabeça, mas com a certeza que vinha de dentro do seu coração e disse:
        - Como é que tu conseguiu roubar um pedaço do meu coração assim, tão facilmente?
        - Eu sempre fui um bom ladrão.
        - Ridículo.
        O silêncio fez-se presente por uns dois minutos, e eles sabiam o que havia acontecido ali. Além de ficarem ensopados de água, eles de descobriram o que sentiam. Julia sabia que precisava dele, e Rodrigo sabia que precisava dela; eles eram como um vício, um para o outro.  
        Rodrigo beijou-a na testa, e já ia embora quando Julia disse:
        - Entenda só uma coisa: Eu nunca vou deixá-lo ir.


        O resto ficou subentendido, como um parênteses em aberto na cabeça de cada um.