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15 de junho de 2016

Entre os céus do Rio e Recife

daqui de cima
o céu parece um enorme
e esbranquiçado-azul petróleo
                                         vazio

- tão bonito - 


imagino o silêncio


tento calar minha mente,
que reflete no corpo
os espasmos:
dedos que tremem,
desejando pensamentos
coração palpitante,
imparável

não há o que calar
não há o que parar

não dá para calar
      tu
que vens 
e invades

toma completamente o meu espaço
toma completamente minha consciência
                                        e inconsciência 
toma conta dos meus tiques nervosos
                                   cabeça 
                                   coração
                                   barriga
                                   e mãos

nesse imenso e bonito vazio
iluminado pela lua de junho,
não consigo ser vazia, meu bem

não consigo descartar-te

nesse infinito de nuvens pouco e lindamente iluminadas,
queria poder olhar até onde o horizonte se estende
sem ver lá no fundo
que ainda distantes
nos unimos entre estes céus

queria olhar pro fundo deste escuro
e obter alguma clareza

mas a vida, benzinho,
não escreve certezas
entre céus e terras


junho/2015



23 de julho de 2015

Julho, ventos e chuvas

amores-ventos, 
ventam:
refrescam,
arrepiam,
passam
              - passarão,
                         passarinho -
vão e vem
feito balanço de rede
trazem a chuva
e inundam,
transbordam
(como quase tudo no mês de julho)
fazem brotar flores
fazem restar flores

levados no embalo dos céus,

como sementes,
brotam nos peitos que se permitem

e ali florescem

com a chuva que cai
e por ali se espalham
com o vento que vai

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e
restamos
e
sumimos 
um 
dentro
do
outro

11 de maio de 2015

Tudo são olhos

janelas
e portas
:
tudo são olhos

são entradas
que permitem passagens,
encontros, desencontros
desvios, descaminhos

olhos 
transmutam matéria em incorpóreo,
madeira em alma
e permitem
verdades
sentimentos
transparências

as trocas mais sinceras
sem necessitarmos palavras

janelas 
e portas
:
tudo são olhos 

que invadem
e se deixam invadir

que encontram
e se deixam encontrar

que mergulham no olhar alheio
e viram profundos lagos
esperando que o outro, 
também destemido,
entre
molhe os pés
mergulhe
procure
ache
e
até descubra
como respirar debaixo d'água
porque estando dentro se vê
que amor é fundo, meu bem
- nunca superfície - 
e gasta o ar dos pulmões
mas não se afoga

tudo são olhos 

quando o olho demora noutro
quando a gente se sustenta sem palavras
quando a gente deita no olhar alheio como se fosse rede:

é quando já não precisamos de mais nada

além do aqui
além do agora

29 de dezembro de 2014

Líquida

esse meu coraçágua
escorre demais
pra tudo quanto é lado

espera,
medroso,
o tempo em que tudo flua
feito rio jorrando da nascente
- puro,
como se novo:

livre





{coração-água,
aquário que guarda
tantos afetos afeitos
e ainda - e sempre - os desacostumados

meu coraçágua,
desses românticos últimos
e inconsoláveis:
perdidos.}



24 de outubro de 2014

apreensão

Queria lembrar
dos versos que pensei
num momento de epifania
- tão brusca
e ínfima -
enquanto escovava os dentes,


mas não recordo.



(inda tenha um pensamento
C O N S T A N T E :
A gente é igual
no sentimento)


"não fique triste
me promete
nunca desiste
de me amar
passou, passou"


15 de outubro de 2014

Esses

a gente nunca sabe dizer
quando chega o S
no nosso nó

a gente nunca sabe dizer
quando sai o S
pra
virar
saudade



21 de agosto de 2014

Engendramento

Construímos tantas diferenças
      Tantos trejeitos
                e gestos novos
      Tantos espaços
                cada vez mais
                l
                o
                n
                g
                o
                s 
                entre nós


As passagens das pessoas em nossas vidas
são dessas coisas imprevisíveis demais
- são dessas coisas necessárias demais:
                             firmam-nos pontos fortes
                             ou talvez desinteressantes
                             (nunca desimportantes)
  no peito nosso

                            e nessa nossa estrada,

                                           sempre tão cheia e corrida

                                                      sempre tão solitária e vazia

fotos de Neil Craver
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14 de julho de 2014

Sinestesias


A cor
e o movimento:
cor
a
ç
ã
o

O SOM:
escuto
 forte e pulsante
enquanto fecho os olhos 
e sinto tudo vermelho
quando no interior de minhas pálpebras
desenho os giros no espaço


Contrações do amor
e dos vasos sanguíneos
quando o agridoce 
salta na boca
e no peito florido



foto de Melanie Ziggel
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28 de abril de 2014

Das minhas fendas

para todos os lados que olho: falhas.
para todas as pessoas que olho: falhas.
para meu interior que olho: falhas. 
para todos os lados que olho: falas.
para todas as pessoas que olho: falas.
para meu interior que olho: falas. 
quando olho para ti:

mais falhas

e calas,
mais nada
.
.
.
onde e quando 
os erros
se esgotam? 
onde e quando
nossos tempos
se acertam?
onde e quando
(e será que)
a gente se encontra?
.
.
.
poucos passam por mim sem que eu sinta
todos tornam-se minhas fendas
(neste tempo de dúvidas,
sobram os sinceros)

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18 de março de 2014

Perguntas encontradas em erros de grafia

quantos corações cabem numa pessoa só?
quantos corações cabem na tua pessoa só?
quantos corações cabem na nua pessoa só?
quantos corações cabem num momento só?
quantos corações se juntam num momento só?

quando os corações se encontram nesse caminho só?


(o peito nosso
  e essa nossa estrada,

sempre tão cheia e corrida
sempre tão solitária e vazia)


foto de Chema Madoz
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17 de dezembro de 2013

COCOON

gosto do som dessa palavra em inglês
mas em português
é só um casulo,
nulo

quase como esconderijo
quimera fosse abrigo

pro meu coração pupa



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10 de novembro de 2013

Contrações e contradições


O coração
O vazio
A dúvida
O amor

A divisão de mim
                        refletida nos outros

A mão treme, a caneta escorrega
        A indecisão constante e acelerada

Preciso me contrair inteira
para esvaziar-te de mim:

sístoles

desse meu coração pretérito,
seco ao sol,
passado

Preciso afrouxar as manias,
deixar fluir,
dar preferência à minha origem líquida,
escorrer, preencher:

diástoles

o coração enfraquece
e fortalece
nos intervalos de tempo





27 de junho de 2013

Dias de chuva e correria

Tem dias que a gente só precisa de gente do nosso lado. De alguém que diga qualquer besteira, qualquer coisa boa, qualquer coisa que mova um riso, qualquer coisa seja qualquer coisa, que seja bonito, que deixe um sopro leve no peito. Tem dias que a gente só precisa de quem saiba limitar nossa loucura, de alguém nos guie e nos dê um pouco de luz nos tempos maus. Tem dias que a gente não precisa de nada nem ninguém, mas a gente nunca quer. O silêncio nos deixa a sós com nossa mente imparável. Pensar dói e sentir o peso de todas as coisas, mais ainda. Qual será o verdadeiro som que o silêncio faz? E eu achando que sabia dessa resposta, como achava que sabia tantas outras. Eu sou tão pequena. E a vida também: passa correndo, voando em saltos no tempo. Eu, tão pequena. E a gente? E as gentes? E nós? E os nós? E os laços? 
Eu acho que tem dia que a gente só precisa de um cafuné.
(ou de qualquer sentimento de verdade).

10 de maio de 2013

EXPLODIR

      Tanta coisa na cabeça que não tem fim não tem tamanho não tem pausa apenas mais e mais pensamentos e conexões e possibilidades e quando é que isso tudo vai parar e será que a cabeça aguenta e o coração aguenta também e se a gente explodir e se a gente parar e se a gente correr demais e não puder ver mais nada e se a gente estragar tudo onde é que moram tantas perguntas para onde vão os pensamentos que são esquecidos será que podem caber tantas lembranças dentro de uma pessoa só e se a gente cansar e se a gente se esgotar e se a gente nunca parar



.
.
.


Quebra de pensamento, mudança de fluxo. Mas e o que eu quero agora? Será que sei? Por que sempre existem tantas perguntas dentro de mim? 
Eu queria ter certeza das coisas.

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23 de abril de 2013

7 vezes pra dar sorte

arianos arianos arianos arianos arianos arianos arianos 
eterna relação
de amor e ódio
entrega e medo
fogo e calma:
carma

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15 de abril de 2013

Inexplicável


Batida imprevista e indizível de um coração com o outro
ou dessas coisas violentas dentro da gente:
solavanco da alma 
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17 de março de 2013

ciclos


Surge,
fura,
entra.

Faz moradia,
constrói o lar.

Dá-te um travesseiro,
te cobre com o lençol dele.
Diz umas palavras bonitas pra gente gravar na memória
e doer depois. 

Dorme,
acorda,
ama.
Come,
vê tv,
ama mais e outra vez.

É casa, é morada
Mora-se no sentimento,
naquilo que foi projetado.

Fura de novo
e entra mais
mais
mais
mais
ais
ai
e
sai.
Vai.

Fica
o que foi projetado
o que foi lar
o que foi lençol
o que foi junto
o que foi palavra

Fica
o que virou buraco,
quando só existe a falta

Fica
o que foi amor
.
.
.

Surge,
fura,
entra.

Acolhe,
acrescenta,
mora.

Estraga,
bagunça,
dói.

Vai embora.

- e a gente espera a hora
em que vai começar tudo outra vez

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