12 de novembro de 2012

21 de outubro de 2012

Onda


Tu me apareces tão repentinamente quanto te vais. Parece até que planejaste tudo para me deixar ainda mais perdida. E eu com minha mania de pensar demais, de querer adivinhar, de buscar explicações, de qualquer coisa que me acalme um pouco o coração. Mas nunca consigo. Sou muito e não caibo dentro de mim. Esborro. Sujo o chão. Sujo quem tenta limpar minha bagunça. Sujo quem quer me ajudar, mas, sem querer, não deixo. Prefiro estar como estou, ser como sou. 
Digo que vou embora, e vou. Estou indo, meu bem. Devagarzinho, bem sabes, caso tu te arrependas assim, do nada, por quase um segundo. Mas estou seguindo meu caminho, cada vez mais claro e bonito. Tempo é mesmo dessas coisas relativas demais. Às vezes demora a passar, mas ele também sabe voar. Outubro passou num piscar de olhos. Meu piscar de olhos com você refletido nas minhas pálpebras. Meu cinema particular de nós dois. Minha tela de nossas lembranças. “O rádio toca a nossa música... tão bonita e estranha, amor.” Sempre toca. Várias delas. Algumas tu nem deves lembrar. Aposto que não. Mas eu sei de todas, guardei um monte só para mim. Guardo tudo, sou caixa de memórias ambulante, vagando esquecida por aí. 
Mudei tanto, benzinho. Porém continuo sendo contradição: como posso mudar tanto e tu continuares no mesmo lugar?! Pareço quebra-cabeça daqueles que a gente nunca consegue terminar de montar. Um mexe e remexe de peças que a gente não consegue completar porque já tá viciado numa forma única de enxergar. Vejo tudo embaçado por dentro: visão turva de quando acordo sem óculos, bagunça de gente que não vê o que tá fazendo de errado – nem sabe como fazer o certo. 
Eu ainda doo. Bem escondidinho, quando invento de meter o dedo no peito, procurando o que já nem devia mais. Mais uma dessas minhas manias desnecessárias que não consigo largar. Como boa canceriana – há quem diga –, não consigo largar essa minha mania de passado. Mania de guardar tudo dentro de mim e querer procurar de novo quando dá vontade, mesmo sabendo onde vai dar. 
Mania de teimosia, também. Tem coisas que não dá pra mudar, já estão muito marcadas no fundo da gente. Mania de tentar explicar, como já tentei tantas vezes dizer o que senti dentro de mim. Mas quem já se afogou tem uma mínima noção da dor que é amar o perdido. A água entra nos nossos pulmões, a gente quer chorar, mas não consegue sequer respirar; dói tudo dentro: dor estranha, rasgada, inundada. A gente sente arder por todo o nosso caminho interior, bate lá dentro e não acaba nunca, bate e não volta pro outro, bate, bate, bate e fica só na gente. Tosse, tosse, tosse. Água para fora pelos olhos, boca, nariz. Amor para fora pelos olhos, boca, nariz. Amor salgado também, igualzinho ao mar que nos afogou. Igualzinho à onda que nos derrubou e embolou na confusão de areia e engasgos. Mas a gente não engole aquilo que nos faz mal, a gente cospe. 
Tu passeias pela minha cabeça e para que não passe disso, apenas te engulo. E engoliria quantas vezes mais fosse preciso. Mas chega a hora que a gente tem que colocar para fora, nem que seja obrigado. Nem que seja preciso alguém esmurrar minha barriga, meu diafragma ou sei lá o que para que eu te cuspa. Para que eu volte a respirar. Para que tua água saia de dentro dos meus pulmões. Para que eu desancore de uma vez desse cais conturbado. 

Para que tu, onda que és, não perturbes mais a paz do meu mar. 


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24 de setembro de 2012

Minha miopia

Queria que meu coração 
fosse míope também
Acho que só assim 
eu deixaria de te enxergar


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17 de setembro de 2012

Imediatista


 Quero hoje e agora. Quero pra ontem. Amanhã não sei – nem sei quem sabe. Não deixe para trás a minha bagunça: queira me arrumar. Queira reparar os erros, juntar meus pedaços, cantar uma música para mim. Ou suma de uma vez, você que sabe, mas decida logo. Eu tenho vontade de seguir, mas acabo ficando. Fico esperando que tanta coincidência dê em algum lugar, que me dê ao menos uma resposta das tantas outras que me faltaram. Eu quero passar, quero ir. Quero parar de ter tanta contradição assim dentro de mim. Mas o que faço com você? Quero o sim, mas também quero o não. Quem quiser que se atreva a me entender.

Coração na mão, quase caindo.
Depois pode ser tarde demais: não me perca.

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31 de agosto de 2012

De que são feitos os sonhos?

Hoje acordei achando que estava dentro de um sonho teu. Por quê? Será que você sonhou comigo também? Será que a gente pode entrar assim no sonho do outro? Sem bater na porta, sem pedir licença? O que será que se passa dentro de você? O que será que acontece aqui dentro de mim? Sinto como se eu estivesse repetindo palavras buscando um jeito de traduzir o meu interior. Talvez o silêncio explique a bagunça que me preenche. Ou talvez seja necessário criar palavras. Talvez, ainda, fosse necessário apagar memórias para que desse jeito teu rosto não me apareça mais na mente. Nem teus olhos, orelhas, sobrancelhas, boca, nariz, pescoço, costas, barriga, tudo. Nem teus sinais e essas coisas que me aparecem repentinamente e eu acho que podem significar qualquer coisa. Nunca sei. Tem como saber? E se for nada? Mas e se for tudo? Quase enlouqueço. Meu subconsciente vê teu nome sempre e em todo lugar. O que faço? Queria que cada vez que eu escrevesse teu nome tuas aparições diminuíssem em minha cabeça. Eu dançava, tu me olhavas. De longe, nossos olhos estavam juntos. E nossos corações? Me abraçavas. As palavras sumiam. Onde mais eu buscaria palavras quando todas me desapareceram em plena madrugada? Por que as músicas são mais tuas do que dos próprios autores? Por que mal consigo escutá-las? Nunca mais darei Chico, Caetano, Otto, Beatles ou qualquer outro para ninguém. 
Momento de lucidez: é minha cama agora, onde está você?
Por que eu chorava? Por que tu calaste? Ainda é sonho? Onde terminou esse devaneio? Era meu ou era teu? 

A gente parece filme quase queimado, negativo de foto que esqueceram de revelar.