28 de abril de 2011

O silêncio

        
        
Você saiu batendo a porta, praguejando alguma coisa, reclamando de mim. E eu fiquei olhando você ir, sem poder fazer nada, sem conseguir sair do canto. Você tava tão linda dizendo aquilo tudo pra mim. Gritava com raiva e doía ouvir, mas eu ouvi cada palavra que saiu da sua boca, fascinado. Tudo passava devagar e enquanto você andava, seus cabelos pulavam de acordo com seus passos e seu vestido parecia sambar – de um jeito meio aborrecido – no seu corpo. Eu não consegui parar aquilo.
        Maior do que a dor de te ouvir dizer que tinha acabado de vez e que nada ia te fazer mudar de ideia nem mesmo se eu fosse correndo atrás de você, foi não conseguir sair do lugar. Eu simplesmente não consegui gritar o teu nome, pedir pra você ficar ou produzir qualquer gesto desajeitado que tomasse a tua atenção por alguns segundos. Meus olhos te acompanhavam e eu te via cada vez mais longe. Eu queria ter dito tanta, mas tanta coisa... só que nada saía. Onde mais eu ia arrumar palavras, quando todas tinham me sumido em plena madrugada?
            Eu não conseguia ver nada mais do que seu vulto, agora caminhando tranquilamente, na beira do mar. Você molhava os pés e olhava para baixo, quieta, longe. Eu tinha tanto pra te dizer. Tanto, tanto, tanto. Eu pensava em você, em nós dois, em cada momento que passamos juntos e era tudo tão transparente, tão nítido. Mas eram apenas lembranças batendo forte na memória – e batiam com tanta força que minha cabeça doía, espalhando ainda mais a dor pelo meu corpo, me fazendo sentir por inteiro a sua perda - e agora eu estava sozinho, com minha paralisia e o mar.
            Eu sei que você queria ter ficado, mas também sei que você não aguentava mais a minha teimosia de sempre, a minha mania de desobediência com a vida. Eu queria que você tivesse ficado ali comigo, pra que a gente pudesse ficar colado, como sempre fazíamos. A gente tinha essa mania de viver apertado, grudado, completando a metade que (antes) faltava um do outro. Mas do que eu mais vou sentir falta serão seus olhos implorando aos meus pra olhar lá no fundo... é que quando eu olhava, nunca me arrependia. Eu adorava olhar bem lá dentro e te ver. Adorava sentir seu coração voando, batendo rápido, quase saindo pela boca. Adorava quando te fazia sorrir com qualquer besteira; você ria tão fácil, sem sombra de dúvidas, verdadeiramente. Eu te adorava inteira. E é disso que eu mais vou sentir falta: você.
            Dentro de mim, só passa o seu filme. Mas a gente acostuma. Em alguma hora passa – tem que passar. Agora, somos essa saudade que não cessa, que parece nunca esgotar. Só espero que você não esqueça o quanto fomos doces e como fomos duas vidas que se preencheram tão facilmente, sem esforços.
          
            O mar silencia. As ondas quebram em meus olhos.




12 de abril de 2011

Contradição

            Digo que não. Que nunca mais quero te ver, que não quero mais nada que venha de você, que não quero ouvir sequer uma palavra que saia dessa tua boca, que não quero mais nada, nada, nada. Digo não pra qualquer abraço, beijo, olho, rosto colado, nariz, boca, queixo, orelha. Nós juntos, jamais, mais nada, digo que não quero e que seja ponto final pra você.
            Mas me entenda: eu quero tudo e de todos os jeitos. Quero te ver sempre sempre sempre - sem vírgula nem pausa, que é pra durar mais mesmo - e o que vier de você eu tô querendo. Quero abraço, beijo, olho, rosto colado, nariz, boca, queixo, orelha... nós juntos, cada vez mais. Ao invés de não, quero sim. Sim, sim, sim, sim.
            Eu queria que você entendesse de uma vez que eu sou toda ao contrário, invento palavras, troco significados, grito pro mundo que não quero que ninguém chegue perto quando o que eu mais quero é carinho. Se você quiser, te deixo ancorar o barco. Acalmo esse mar, arranjo um espaço, te amarro com todo o cuidado no meu cais. Mas você precisa saber que aqui dentro tá tudo virado de ponta a ponta e que eu preciso arrumar antes de você chegar.


           Não preciso de mais ninguém que venha pra cá só pra fazer bagunça, desarrumar e deixar tudo de cabeça pra baixo.


          
           Mas se você vier mesmo, deixa pra lá. Ignora minha mania de contradição e lembra que com você eu fico do jeito certo. Paro com o não, começo com o sim, sem contrariedades, só a palavra pura, dizendo o que ela sempre quis dizer. Sim, sim, sim, sim. Não vai me importar bagunça nenhuma. Eu quero mesmo é que você venha, ancore seu barco, more em mim, me desarrume inteira, fique. Mas venha.


           Só direi sim. E tenho dito.

29 de março de 2011

Respire fundo



Nas minhas veias corre uma tinta
que imagina
ser sangue

De enxerida, instalou-se em meu coração
e lá dentro pinta e borda

Entre suas obras,
desabotoou meu coração
e aberto,
qualquer um pode ver:
ele transborda
Por mais que eu não queira
ou tente segurar,
tinta escorre pra todo lado

Meu coração, borrado
inventa de querer ver tudo colorido
Se esquece que tinta gruda
Lava,
esfrega:
não sai
Impregna, feito saudade
daquelas que não se consegue arrancar
nem com mil litros de água sanitária

Me faz respirar fundo
e aí
.
.
.
flutuo
.
.
.
mas depois caio

Coração bate forte
no chão
Faz tumtumtumtum
rápido rápido rápido rápido
tumtumtumtum
mal
tumtumtum
consigo
tumtum
falar
respirar

Bate:
saudade,
coração
Tinta pinta,
botão não fecha:
tudo de novo
(dessa vez começa colorido) 

12 de março de 2011

Retrovisor

Ouvi dizer que não se espera, que amor só vem quando bem quer e pouco importa o desejo de cada um. Mas é que às vezes, vira e mexe, você aparece de novo. Numa música, lembrança, foto, sei lá... qualquer coisa. Nunca esperei muito de você. Nunca sequer pude esperar nada. Foi tudo tão corrido, de um jeito tão bobo, e pronto: eu já queria poder te guardar nos meus braços. Para sempre, por algum momento, por um dia ou duas horas. Eu só queria ter te guardado um pouco. Eu quis te ter. Quis. E quis tanto, tanto, tanto. Mas você não quis que eu te quisesse. Não quis ver meu mundo, conhecer melhor o que se passava por dentro de mim ou tentar entender porque eu ia embora e acabava voltando atrás. Talvez você tenha tirado uma conclusão. Eu não. Nunca entendi muito bem porque tudo era tão rápido, que eu mal podia enxergar; era tão borrado, eu só conseguia ver você e mais nada. Não tinha razão. Sem sentido, só sentimento... eu nunca via a explicação.


Calo. Folha em branco. Cabeça vazia. Só consigo ouvir o meu coração bater. Oco. Um quase silêncio se instala do lado de dentro. Nada. Mas aí começa tudo de novo e lá vai minha cabeça com seus infinitos pensamentos e perguntas sem resposta.


Parece que tudo que existe faz questão de não ter sentido. Inclusive eu, você. Nós. Quis tanto que tivesse dado certo. Que tivesse dado em alguma coisa. Que você tivesse me mostrado seu horizonte, e eu, as cores do meu céu. Que você tivesse conhecido minhas músicas preferidas, e cantaríamos juntos, como se elas se tornassem suas também. Queria que você tivesse invadido ainda mais o meu espaço, sem licença nenhuma mesmo, eu não me importava: eu só queria que você ficasse. Mas você foi embora.
Lá fora, o tempo passa sem você. Retrovisores refletem os caminhos andados, o que ficou para trás. O meu retrovisor não passa nada, continua parado, no mesmo lugar. Eu, retrovisor, você, silêncio. Preciso ir embora.
No começo é assim. Pode durar mais, menos, muito, pouco, demais ou quase nada, mas passa. Aos poucos vou andando. Tento andar sempre, por mais que me doa ter que te deixar passos e mais passos atrás de mim. A gente tem que seguir. Devagar, ando. Meu retrovisor começa a te refletir no canto, lá longe. Dói. Mas vou.
A gente erra muito. Chora, se arrepende, machuca, faz drama, toma decisões erradas. Mas chega o dia em que a gente aprende a fazer uma coisa sensata. E faz, mesmo que seja só uma. É difícil, mas a gente tem que deixar o retrovisor refletir o passado. Já passou... a gente é que tem mania de não deixar passar.


             Dói. Mas vou.

23 de fevereiro de 2011

Vontade

     Estranho ter que conviver com esse teu eu. Esse teu eu que para mim é novo... e que sempre continuará sendo. Difícil. E o maior problema é ter que olhar nos seus olhos, me ver bem lá no fundo, no canto, escondida nalgum lugar - não sei se só na minha cabeça, mas eu me vejo lá - e não poder fazer nada. Te toco, deito-me em teus braços... meus olhos fecham e o nosso filme passa (de novo). Sempre passa. Saudade. Não faz mais isso comigo! Você não tem noção da vontade que me dá de te dar um beijo e de te chamar de meu... meu, meu, meu, meu, meu, meu. Meu! Você me dá vontade de me perder nas minhas palavras, meus atos (ainda mais!), gestos mal calculados... tudo, tudo, tudo. Você não tem ideia do quanto que você me faz querer me perder em você. E pior: acabo me perdendo.



originalmente postado em: http://dontgetout.tumblr.com/