9 de março de 2013

É uma carta, mas não de amor


 Acabei de ler uma coisa que me lembrou você, bem na metade do caminho, quando eu já vinha escrever qualquer coisa, de qualquer maneira: “não procure a pessoa mais brilhante do mundo. Encontre aquela que te ilumina aos poucos, em alguns momentos. Quem brilha pra sempre, já morreu”. Piegas, eu sei, mas todas as cartas de amor são ridículas - não que essa aqui seja uma. Eu só queria dizer que tô cansada. Vivo cansada, só não me dou conta. Quando percebo, vejo que minha vontade é de abrir meu corpo, como se tivesse um zíper mesmo, e sair dali, migrar pra qualquer outro corpo, qualquer um mais agradável, mais desconhecido. Ou me enterrar junto com minhas memórias dentro de uma caixinha e virar lembrança também. Quando noto, assim, às vezes, minha vontade é de sumir, desaparecer. Ver gente nova, poder fazer diferente. Será que existiria a falta? Será que alguém sentiria a minha? Será que a saudade ainda viria bater nessa porta perdida pelo mundo em que eu me encontraria? Eu queria abrir o zíper de mim e jogar o coração fora. Pronto. Talvez aí se resolvesse. Não, teria que jogar fora as memórias também. E agora? Sobrara-me a luz. o que faço com isso? Você ainda brilha aqui dentro. Vezenquando, é verdade. Mas não se joga luz fora, com o que mais se iluminariam as coisas? Mas aquilo que brilha para sempre já morreu. Você é estrela infinda no céu do meu peito: morreu, mas ainda brilha, escondida nos cantos de mim.


24 de fevereiro de 2013

Do português: permanecer, parar, deter-se

Quedar-se:
quem dera fosse de cair,
quem dera significasse 
minha queda em ti

Quedar no tempo:
ficar grudada em ti,
naquilo que sobrou de nós,
naquilo que teimo em juntar os pedaços

Permanecer na tua mente
no teu coração
em toda tua alma
e carne

Quedar-me em ti
por completo

Querer dar-me ao amor,
deter-me apenas em ti
e no sentimento

Quedar tua queda em mim,
quedar minha queda em ti:
guardar-te



clique e ouça

14 de fevereiro de 2013

Somos instantes

       Somos minúsculos pedaços de acontecimentos que se repetem continuamente na vida. Somos memórias. Somos esse filme velho que vemos passar todos os dias pelas ruas, calçadas, ônibus, casas. Somos partes pequenas e ambulantes que andam procurando um destino. Somos instantes que se somam. Nascemos do moer e remoer dos momentos. E nascemos, assim, cada vez menores, cada vez mais insignificantes, cada vez mais moídos de nós mesmos, como a areia que virou pó quando antes era pedra, mas continuando necessária também. É preciso buscar o que se busca e andar desse nosso jeito desandado para ser o que se é. Somos o mundo dando voltas, o coração batendo em cada quarto vazio, o olho cansado de repetir as mesmas memórias, o passo que dança o que se sente. Somos os instantes que construímos com os outros grãos que se encontram na vida.



clique e ouça

22 de janeiro de 2013

Quero ser andorinha


Constantemente tenho vontade de sumir. Queria desaparecer no mundo como quem tomou chá de sumiço, como quem não tem mais laço nenhum com nada nem ninguém. Mas logo desisto. Sou apegada demais. Canceriana demais. Crio laço com tudo. Eu e essa porra de mania de passado. Essas manias inúteis de laços e nós e enfeites entre as pessoas. Quero mais não. Tô cansada. Quero ter a coragem de ir. Quero ser andorinha e voar sem compromisso por aí. Migrar, somente. Ir embora para poder voltar.



clique e ouça

19 de janeiro de 2013

I'm lost in my old, in my own green light


Eu gosto do amor quando ele me derruba ou quando me faz voar. Se não for assim, não quero não. Não vale a pena. Nem sequer é amor.
Amor é quando a gente flutua devido à leveza do sentimento que nos preenche de tudo. Amor é quando a gente dói por qualquer besteira, porque ama tanto e concentrado em cada pedaço do corpo, que dói de bonito que é. Amor é quando a gente transborda, seja praquilo que é bom ou ruim. Amor é aquilo que eu sinto falta de sentir. 
Saudade do amor dos domingos ensolarados ou chuvosos, mas sempre debaixo dos lençóis vendo filmes. Saudade do amor escrito e lido nos olhos do outro, sem precisar de tradução nenhuma. Saudade do amor da dança dele, de ver uma alegria fácil naquilo. Saudade do amor criado pelo pescoço, sinais e coxas. Saudade de tanto, de tudo. 
Amor é aquilo que me desconcentra dessas coisas da vida, que me bota num rumo forte, que me traça uma coisa só e aquilo é. Eu sinto falta da bagunça que o amor me causa. Ultimamente eu tô bagunçada do meu próprio jeito, dessa minha mania de doidice mesmo. Tô perdida de mim mesma, da minha maneira, das minhas coisas. 

Me perco dentro de mim e sempre esqueço onde fico.
Talvez no nó da garganta. Ou no da tua orelha.


clique e ouça