17 de março de 2013

ciclos


Surge,
fura,
entra.

Faz moradia,
constrói o lar.

Dá-te um travesseiro,
te cobre com o lençol dele.
Diz umas palavras bonitas pra gente gravar na memória
e doer depois. 

Dorme,
acorda,
ama.
Come,
vê tv,
ama mais e outra vez.

É casa, é morada
Mora-se no sentimento,
naquilo que foi projetado.

Fura de novo
e entra mais
mais
mais
mais
ais
ai
e
sai.
Vai.

Fica
o que foi projetado
o que foi lar
o que foi lençol
o que foi junto
o que foi palavra

Fica
o que virou buraco,
quando só existe a falta

Fica
o que foi amor
.
.
.

Surge,
fura,
entra.

Acolhe,
acrescenta,
mora.

Estraga,
bagunça,
dói.

Vai embora.

- e a gente espera a hora
em que vai começar tudo outra vez

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12 de março de 2013

9 de março de 2013

É uma carta, mas não de amor


 Acabei de ler uma coisa que me lembrou você, bem na metade do caminho, quando eu já vinha escrever qualquer coisa, de qualquer maneira: “não procure a pessoa mais brilhante do mundo. Encontre aquela que te ilumina aos poucos, em alguns momentos. Quem brilha pra sempre, já morreu”. Piegas, eu sei, mas todas as cartas de amor são ridículas - não que essa aqui seja uma. Eu só queria dizer que tô cansada. Vivo cansada, só não me dou conta. Quando percebo, vejo que minha vontade é de abrir meu corpo, como se tivesse um zíper mesmo, e sair dali, migrar pra qualquer outro corpo, qualquer um mais agradável, mais desconhecido. Ou me enterrar junto com minhas memórias dentro de uma caixinha e virar lembrança também. Quando noto, assim, às vezes, minha vontade é de sumir, desaparecer. Ver gente nova, poder fazer diferente. Será que existiria a falta? Será que alguém sentiria a minha? Será que a saudade ainda viria bater nessa porta perdida pelo mundo em que eu me encontraria? Eu queria abrir o zíper de mim e jogar o coração fora. Pronto. Talvez aí se resolvesse. Não, teria que jogar fora as memórias também. E agora? Sobrara-me a luz. o que faço com isso? Você ainda brilha aqui dentro. Vezenquando, é verdade. Mas não se joga luz fora, com o que mais se iluminariam as coisas? Mas aquilo que brilha para sempre já morreu. Você é estrela infinda no céu do meu peito: morreu, mas ainda brilha, escondida nos cantos de mim.


24 de fevereiro de 2013

Do português: permanecer, parar, deter-se

Quedar-se:
quem dera fosse de cair,
quem dera significasse 
minha queda em ti

Quedar no tempo:
ficar grudada em ti,
naquilo que sobrou de nós,
naquilo que teimo em juntar os pedaços

Permanecer na tua mente
no teu coração
em toda tua alma
e carne

Quedar-me em ti
por completo

Querer dar-me ao amor,
deter-me apenas em ti
e no sentimento

Quedar tua queda em mim,
quedar minha queda em ti:
guardar-te



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14 de fevereiro de 2013

Somos instantes

       Somos minúsculos pedaços de acontecimentos que se repetem continuamente na vida. Somos memórias. Somos esse filme velho que vemos passar todos os dias pelas ruas, calçadas, ônibus, casas. Somos partes pequenas e ambulantes que andam procurando um destino. Somos instantes que se somam. Nascemos do moer e remoer dos momentos. E nascemos, assim, cada vez menores, cada vez mais insignificantes, cada vez mais moídos de nós mesmos, como a areia que virou pó quando antes era pedra, mas continuando necessária também. É preciso buscar o que se busca e andar desse nosso jeito desandado para ser o que se é. Somos o mundo dando voltas, o coração batendo em cada quarto vazio, o olho cansado de repetir as mesmas memórias, o passo que dança o que se sente. Somos os instantes que construímos com os outros grãos que se encontram na vida.



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