17 de setembro de 2011

Aberto



Aberto, aberto, aberto, céu, branco, eu, você, tanta gente mais, meus amigos, os seus, quase os mesmos, tanta gente, eu, você, aberto, aberto, aberto, céu, nuvens abrindo, azul, alegria no ar, risos, música, carinho, aberto, aberto, aberto, sol, quente, eu, você, azul, aberto, aberto, aberto, você me dizendo coisas lindas, tão lindas, e de repente era tudo tão rápido borrado corria e já não tinha pausa nem vírgula alguma era tudo voando eu você sol céu quente azul você me dizia “meu bem te quero tanto” e eu dizia “que mentira quer nada eu que quero você” e você dizia “não é mentira e que bom que você me quer também porque eu te quero tanto meu bem te quero tanto” e você repetia e fazia “benzinho temos que ir o sol já ta caindo” eu fiz que sim com a cabeça e eu em pé te dei um beijo na ponta do nariz e você sentado me deu um beijo em cada coxa e aquilo era tão meu tão de verdade que eu queria poder gravar tudo queria que tivesse parado de correr, mas aos poucos foi diminuindo a velocidade, botando vírgulas, você já falava mais devagar, lembro que deu tempo até dos nossos olhos se encontrarem um pouquinho.



        Quando abri os olhos, percebi: era sonho – mais uma vez. Tava tudo tão rápido e bonito, mesmo tremendo a vida. Aqui, do lado de fora dos meus olhos, continua devagar. Só uma coisa continuava igual: aberto, aberto, aberto – meu coração e o céu. 

7 de setembro de 2011

SIM

"Toda rebeldia é falta — falta de dinheiro, falta de alimento, falta de amor, falta de carinho."  -Kalil F.
          
          Acho que o mal do mundo é falta de amor. 
          São incontáveis as guerras e manifestos em nome de um progresso mal planejado, tantas ideias regressivas - e todas buscando uma evolução reversa. Cadê a Revolução do Amor, que ninguém faz? 
 Eu com esses tantos amores no peito e essa falta toda por aí. Eu que me doo – de doer e de doar – tanto, não faço questão nenhuma de contribuir nessa mudança: se precisarem do meu amor inteiro, não hesitarei em dá-lo – aqui, em mim, o amor é monocultura que não desgasta o solo desse coração.
 Vontade de sair por aí jogando carinho ao vento, cheiro de felicidade no ar, plantando flores em corações, botando arco-íris no céu, sussurrando pra você e gritando para que todos escutem: 

- AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR, por onde andas?


Espero pelo o dia em que ele responderá. Com sorte, será um daqueles sins bem ditos, como se o Amor tivesse sido chamado pelo mundo todo ao mesmo tempo - CHAMEM, CHAMEM, CHAMEM. 



19 de agosto de 2011

4 vezes amor



Amor é vento: 
brisa gostosa num dia de verão
e no inverno, tufão

É ímpeto planejado, 
coração trancado 
e escancarado, 
tentativa falida 
e por vezes esquecida

Bate suave, 
rasga a pele de leve, 
mete a mão no sentimento, 
se enche
e nos enche
de incertezas, exclamações,
bate-bocas e travessões






Amor é figura de linguagem
das mais complicadas
Mente e desmente,
engana e desengana,
diz e não fala,
ama e desama:
amor é antítese, 
paradoxo, 
passado e presente, 
tudo que nega e afirma,
tudo que se firma e desmonta,
todos os ventos do mundo de uma vez só

O amor me derruba feito furacão faz com casa, 
árvore, prédio, coisa fixa qualquer
Rouba minha estabilidade
pra poder aparecer de novo no dia que quiser,
assim, 
feito hoje. 

11 de agosto de 2011

Como se desse para gravar um sonho

         Vontade de rede, céu, mar, música pra alma. Um vento calmo, soprando bem de leve os teus cabelos curtos. Um passarinho assobiando amor ao nosso redor. Quatro olhos olhando para o mesmo horizonte e duas vozes dizendo de uma só vez:
      -  É meu.
     
       Ontem enrolei meus cabelos até pegar no sono.
       Às vezes acordo querendo ser tua e te querendo inteiro.



26 de julho de 2011

Sobre flores, ervas daninhas e mergulhos indevidos


 “Joga pra cima: se voltar, é seu”. Num dia desses, estas poucas palavras foram repentinamente lembradas e conseguiram prender minha atenção enquanto eu andava apressada no caminho de casa, querendo chegar logo nalgum lugar que pudesse trazer pelo menos um pouquinho de paz àqueles dias conturbados.

Já faz tempo que tenho essa vontade de passar. Queria te jogar pra cima, te deixar ir – e assim, me libertar também.  Mas meu coração parece que integrou você a mim, parece que você se camufla aqui dentro e não me deixa te achar – nem quer sair. Vai ver é essa estranha morada, que mesmo tão cheia de marcas, você adotou como sua. Coração instável, inquieto, incompleto, incansável. Coração tão cheio de “ins”, prefixos de ausência, negação. Coração esgotado, mas que você – sabe-se lá como – ainda consegue plantar alguma coisa.
 Ando tão cansada de ser pra fora. Mas ainda acredito que assim somos mais verdadeiros, justamente por possibilitarmos mais facilmente o toque, o “ser tangível”. É quase como se fosse possível pegar os sentimentos, tocá-los, sentir a forma mais pura, quente e simples. Cansada de ser teimosa, também. Porque pegaram meu coração, deram uns apertos, chegou a machucar, e ainda continuo querendo ser tocável; mesmo estando tão cansada que até chego a pensar, mais de uma vez ao dia, em me trancar do lado de dentro.
Preciso me organizar, jogar fora o que é velho e parar com essa mania de lembrança dos cancerianos; mas quando penso em ser pra dentro, lembro como, quase nunca, vale a pena ser tão pra fora. Gosto como tudo se torna tão intenso, de como você chega tão perto do meu coração. Não consigo desgrudar de nada, nem sequer de você, erva daninha que cresce junto às flores que cultiva com esse estranho carinho.
Eu é que não me deixo passar, e por essas e outras, tenho que tomar cuidado comigo mesma: é nessa de tanto me lembrar das coisas boas e filtrar as ruins, que acabo esquecendo a facilidade com que os que vivem pra fora têm de cair. Por mais que os momentos que quase nunca acontecem sejam mais importantes na minha contagem, preciso lembrar-me das quedas. E foi por isso que desisti de te procurar aqui dentro.

Fica, meu bem... eu preciso de você. Eu preciso me lembrar daquela euforia que senti ao mergulhar no rio dos teus olhos pela primeira vez.  Principalmente, eu preciso me lembrar o quanto doeu sair daquela água gelada e, ainda assim, ter coragem o suficiente de colocar o coração do lado de fora de novo.