27 de outubro de 2011

Matemática

Eu queria me dividir em pelo menos mil pedaços
para que assim o amor ficasse tão pouco em mim
que seria desprezível

mas não é:

Nem que eu me divida em mil, milhões, trilhões
ou sei lá quantos zeros mais,
continua sobrando
e não há subtração que resolva

Quem dera eu pudesse fazer acabar,
nem que ficasse no negativo,
diminuir coisa pouca que fosse,
um pouquinho de nada, vá?

Na minha conta só faço multiplicação
Posso até dividir,
mas só se for pra somar todo esse amor de volta

17 de outubro de 2011

Por que





Tua nuca,
teu cheiro,
minha memória guardando teus trejeitos
(para onde vão tantos detalhes?)

Dá até pra sentir o sangue correndo nas veias
quando toco embaixo do queixo,
lado esquerdo,
perto daquele meu sinal
(daqueles tantos outros sinais
que você quis contar
e cansou)
Não sei se de saudade
ou de felicidade
agonia, talvez
Mas sinto bater,
cansado,
(e rápido!)
o não tão velho coração

Penso tanto antes de dormir
que acabo colocando reticências em tudo
e deixando sem fim
desde o começo

A noite quer dormir
mas eu não deixo, não
Primeiro tenho que ver a rua,
ouvir o silêncio,
perceber que tudo muda de lugar,
menos você

Em três pontos cabem muitas coisas...
principalmente aquilo que nunca se acaba



Será que era de amor?

29 de setembro de 2011

O amor e suas repetições


 Quando amei Maria não tive vontade de andar. Queria mais era ficar ali, deitado, nem que fosse só parado, olhando Maria. Pensava no que ela talvez estivesse pensando, olhava nos seus olhos e tentava achar naquele mel todo um sinal de desespero, algo errado que fosse, uma dúvida sequer, mas eu não achava nada - e ai de mim se achasse, ficar sem Maria, não conseguia imaginar -, acabava gostando mais e mais daquele poço de doce que eram os seus olhos, quietos e curiosos, típicos de uma criança trelosa, de uma Maria contínua, a que ainda possuía o mesmo coração besta desde os cinco anos de idade. Coração rápido, voava no peito e toda vez que eu deitava minha cabeça em seu colo, quase ouvia o coração dela dizer “tá errado, Victor, tá errado”, mas eu não ouvia nem ao menos um sussurro e continuava ali, atento, esperando um ruído qualquer (nunca chegava), até que eu larguei a preocupação e ficava só pensando naquilo que talvez Maria pensasse, mais uma vez – era um ciclo vicioso isso de tentar te adivinhar.
E pensava tanto, que minha cabeça parecia ser feita só pra pensar você, seus olhos, seu cabelo de cor indecisa, seu riso de canto de boca, o vestido que você odiava e eu amava quando você colocava só porque eu pedia. Eu rodava rodava rodava rodava e você sempre no mesmo lugar, e eu já não achava mais que tinha algo errado, tinha perdido essa mania de procurar defeito, acostumei com aquele ditado de que “quem procura, acha”, e resolvi que não queria achar era nada, queria mesmo era continuar assim, do jeito que tava, simples, amor escancarado, amava Maria, amava tanto e exposto, e calado, mas Maria tanto sabia que eu a amava, que eu não precisava dizer nada, Maria sabia, sabia tanto, amava muito, Maria Maria.
 Eu repetia todos os dias na cabeça a música que Maria tinha me mostrado, e quando ela não estava por perto, eu até me permitia cantar; cantava a parte que fazia “de noite na cama/ eu fico pensando/ se você me ama/ e quando”, e cantando eu pensava se você me amava, quando, que horas, onde, que lugar, me diz por favor, mas ninguém respondia. E aí eu pensava em quando te amava e via que era quase sempre – perto, longe, quente, frio, até mesmo morno eu te amava e olhe que eu nunca gostei de meios termos, mas Maria eu amava de todo e qualquer jeito, nunca amei mais ninguém igual quando amei Maria.
Maria, Maria, Maria, Maria, Maria. Eu te repetia tanto – dentro, fora: tantas repetições. Quando amei Maria não quis mais nada, Maria era casa, cama, comida, roupa lavada, vida, canto, melodia, vento, céu, mar, domingo no parque, Maria era tudo, Maria era eu, e eu amava Maria “porque era ela, porque era eu”, de um jeito incerto e exato, que nem Chico dissera num dos dias de 2006, explicando sua música de mesmo nome.
Amei tanto Maria, tanto desses amores in – infinitos, imperfeitos, inimagináveis, inesperados, amor amor amor amor amor amor amor, amor que nunca tem fim. Tanta repetição, mas era isso mesmo que acontecia: eu me repetia e não cansava, nunca enjoei de Maria.
Mas Maria resolveu que esse amor era muito, transbordava os corações, tanto amor não dava certo, ainda lembro dela dizendo que nosso mal era amor demais, explodindo pelas bordas, melando tudo ao nosso redor; e amor - ela dizia - quando é assim, machuca, porque tem que ter muito cuidado, é tanto medo de perder aquilo que – puft! –: perde-se.
QUANDO - essa palavra batia na minha cabeça feito martelo faz em prego. E penso sempre: quando amei Maria, amei. Amor lindo, doído, repetido – embora único. Quando amei Maria, não desamei.


Amar é um “quando” infinito, que quando se fala, subentende-se: amar não passa. Sem fim. Quando quando quando, amor amor amor. Quando amei Maria. 



17 de setembro de 2011

Aberto



Aberto, aberto, aberto, céu, branco, eu, você, tanta gente mais, meus amigos, os seus, quase os mesmos, tanta gente, eu, você, aberto, aberto, aberto, céu, nuvens abrindo, azul, alegria no ar, risos, música, carinho, aberto, aberto, aberto, sol, quente, eu, você, azul, aberto, aberto, aberto, você me dizendo coisas lindas, tão lindas, e de repente era tudo tão rápido borrado corria e já não tinha pausa nem vírgula alguma era tudo voando eu você sol céu quente azul você me dizia “meu bem te quero tanto” e eu dizia “que mentira quer nada eu que quero você” e você dizia “não é mentira e que bom que você me quer também porque eu te quero tanto meu bem te quero tanto” e você repetia e fazia “benzinho temos que ir o sol já ta caindo” eu fiz que sim com a cabeça e eu em pé te dei um beijo na ponta do nariz e você sentado me deu um beijo em cada coxa e aquilo era tão meu tão de verdade que eu queria poder gravar tudo queria que tivesse parado de correr, mas aos poucos foi diminuindo a velocidade, botando vírgulas, você já falava mais devagar, lembro que deu tempo até dos nossos olhos se encontrarem um pouquinho.



        Quando abri os olhos, percebi: era sonho – mais uma vez. Tava tudo tão rápido e bonito, mesmo tremendo a vida. Aqui, do lado de fora dos meus olhos, continua devagar. Só uma coisa continuava igual: aberto, aberto, aberto – meu coração e o céu. 

7 de setembro de 2011

SIM

"Toda rebeldia é falta — falta de dinheiro, falta de alimento, falta de amor, falta de carinho."  -Kalil F.
          
          Acho que o mal do mundo é falta de amor. 
          São incontáveis as guerras e manifestos em nome de um progresso mal planejado, tantas ideias regressivas - e todas buscando uma evolução reversa. Cadê a Revolução do Amor, que ninguém faz? 
 Eu com esses tantos amores no peito e essa falta toda por aí. Eu que me doo – de doer e de doar – tanto, não faço questão nenhuma de contribuir nessa mudança: se precisarem do meu amor inteiro, não hesitarei em dá-lo – aqui, em mim, o amor é monocultura que não desgasta o solo desse coração.
 Vontade de sair por aí jogando carinho ao vento, cheiro de felicidade no ar, plantando flores em corações, botando arco-íris no céu, sussurrando pra você e gritando para que todos escutem: 

- AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR AMOR, por onde andas?


Espero pelo o dia em que ele responderá. Com sorte, será um daqueles sins bem ditos, como se o Amor tivesse sido chamado pelo mundo todo ao mesmo tempo - CHAMEM, CHAMEM, CHAMEM.