Tô me guiando na sorte, pelo acaso. Coisa rara, de uns
tempos pra cá. Quem sabe até dê certo, valha o risco que a gente corre cada vez
que insiste em abrir a alma e deixar pegar no coração. Sim, não. Talvez. As
incertezas nunca foram tão certas.
Mesmo que as palavras acabem, ainda existem os olhos. E os
olhos, benzinho, duram uma eternidade. Nem que o coração salte pela boca e a
gente prenda no último instante; nem mesmo quando esse músculo tá cansado,
parando de bater: os olhos ficam com a gente, custe o que custar. Mesmo sendo
involuntário ver o reflexo dos seus quando fecho os meus, no interior das
minhas pálpebras. Mesmo doendo, os olhos continuam bem guardados. Perto, longe,
não importa. Vejo teus olhos daqui; eles conversam com os meus.
Entenda logo como sou e saiba me contornar vez ou outra. É
que essa minha mania de contradição acaba atrapalhando muita coisa e eu vou
ficando cada vez mais perdida dentro de mim. Quero que você fique, mas
vai ter um momento em que vou espernear e pedir pra você desancorar o seu barco
do meu cais: não vá, é só confusão minha. Quero mais é que você fique e explore
meus mares. Entenda que minha maré é muito difícil de prever e que quase lua nenhuma
dá jeito nisso. Entenda que você me dá vontade de navegar até onde for possível, só
pra poder te encontrar de novo, no caso da gente se perder. Sou tempestade em
copo d’água, mas quero que você me derrame por aí. Me espalhe, me guarde. Entenda
que quase sempre isso aqui tá uma bagunça, mas se for problema dos grandes, eu
dou um jeitinho de arrumar a casa. Mas quero que você mergulhe no meu mar, sim?
Hoje a maré tá calma. Com vontade de você, cada vez mais. Chove
um pouco. A areia tá toda pontilhada, marcada da água, sabe como é? Acho uma
delícia andar pela praia quando o chão tá assim, fazendo cócegas nos pés. Gosto
quando a chuva sai de mim e vai molhar o mundo.




